sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sobre o Mundial: a burguesia vermelho e "branca" em Abu Dahbi


Deus está morto.

Nietzsche

– a burguesia vermelho e “Branca” em Abu Dahbi


Olhei ao fatídico jogo entre Inter e Mazembe junto com meu caro amigo Atahualpa (doravante “Atah”). Não costumo secar desnecessariamente. Porém, antes para evitar um sábado próximo como foi o domingo de 17 de dezembro de 2006, do que por qualquer “anti-coloradismo”, torci muito pelos africanos. Aliás, salve mãe África, tantas vezes explorada, raríssimas vezes “exploradora”. Pois, o Congo representado pelo Mazembe explorou. Não só devido ao fracasso técnico do ataque colorado, nem de seu (ir)regular arqueiro, mas também graças à forte ligação com o divino que os africanos demonstraram. Em cada lance de perigo no jogo eles olhavam para o céu. Tanto no ataque quanto na defesa. Seu goleiro – de nome “Kidiaba” – a expressão técnica que os colorados não têm em Renan. Um goleiro com o diabo no corpo, que dança, defende e, assim, parece esbanjar um contato com deuses e demônios como poucas vezes o futebol viu. E a torcida africana não ficou para trás. Mesmo em menor número frente à maioria colorada, exibiram sua linda negritude com uma charanga, cânticos e a alegria sanguínea de sua terra. O sangue pouco apareceu nos vermelhos. Os colorados presentes em Abu Dhabi pouco refletiam o “clube do povo do RS”, como, por exemplo, se percebe no Beira-rio. Aliás, quando às câmeras de televisão passeavam pelas arquibancadas, não se via um só sujeito negro entre os colorados. Algo interessante para o clube que tanto se orgulha de seu passado “afrikaner”. Atah não deixou passar: “olha lá, a burguesia colorada da província que foi passear em Abu Dhabi”. E sem pestanejar concordei. Começávamos a des-vendar a antropologia daquele confronto. Os africanos fizeram toda a preparação com o “místico” que lhes são corriqueiras. Tanto torcida quanto jogadores em campo. Os colorados, com relação ao time, pouco lembraram aquela consistente equipe das finais da Libertadores. E nas arquibancadas, a burguesia vermelho e Branca em Abu Dhabi, passou a léguas de distância de torcedores que no Beira-rio, por exemplo, jogam balas de mel e fazem com que todos os santos apóiem o colorado em suas jornadas. Nada disso. Os colorados que lá estavam eram de outra relação com a quadratura da vida “deuses/mortais - “Terra/mundo” (Heidegger). E assim a ironia da história deu-se mais uma vez, fazendo com que o colorado perdesse também pela ausência da negritude sanguínea em Abu Dhabi. Em todos os sentidos, no campo e na arquibancada, do goleiro (Renan) ao centroavante (Alecssandro), entre deuses e mortais. No futebol como na vida, por vezes, os deuses fazem justiça aqueles que lhes são mais próximos. Tanto faz, em campo ou na torcida.

Jayme Camargo da Silva

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Novos Baianos em Buenos Aires – “apenas viro me viro”...

Fui a Buenos Aires com um grupo multicultural. Éramos brasileiros, japoneses, chineses, hondurenhos e espanhóis. Não vou nem falar do charme e “interessância” da cidade, pois tal – outros com mais gabarito sabiamente já o fizeram. Falarei de uma festa não menos multicultural que acabei fazendo. Essa noite havia começado cedo. Eu e o pessoal com o qual viajei tínhamos ido a um lugar pouco antes de “Palermo”. Era um domingo à noite. A festa era de hip-hop. O lugar me (a)pareceu de dois modos. Primeiro com o que ele pretendia ser, ou seja, seu projeto era ser uma espécie de “elo perdido” – lugar em que rolavam festas interessantes na rua Garibaldi no fim dos anos 90. Do outro modo, vi o lugar como aquilo que se tornou, ou seja, conforme seus habitantes, músicas e práticas, isto é, parecia estar no “Gê Powers” – bar de black music também na província da virada do milênio. Acabamos voltando para o hostel umas 3 e meia da manhã. Todos foram direto para os seus quartos. Eu, de outra banda, fui comer meu sagrado alfajorzinho antes de dormir. Em Buenos Aires é sempre de bom tom comer um alfajorzin antes de dormir... Torna-se mais fácil sonhar com os anjos. E não deu outra: com um anjo me encontrei. E acabou não sendo no sono. Antes pelo contrário, acabou sendo um sonho.


Ouvi ruídos e vozes ao fundo do hostel, enquanto preparava para me retirar ao leito. Resolvi, no melhor estilo Bial, dar uma “espiadinha”. Assim, avistei uma festa rolando na cozinha/salão de festas. Fui prontamente convidado a me juntar ao grupo, por um menino americano chamado “Ethan”. Ele era da Califórnia, mas estava morando em Buenos Aires. Olhei a festa mais de perto e logo diagnostiquei – havia apenas 3 meninas e um bando de “cuecas”. Uma delas misteriosamente sumiu pouco depois que eu me aproximei. Uma outra estava com uma criança e um “magrão” a tira-colo pajeando a sua atenção. A terceira estava em um grupo que tinha bolivianos, argentinos, americanos e espanhóis. Ela falava constantemente e em espanhol. Era uma gatinha. Fiquei uns 28 minutos naquele chove-não-molha e estava praticamente abortando a missão. Quando de repente a bela garota que falava espanhol interrompeu uma fala no grupo que estava ao meu lado, e fez uma interjeição em português. Olhei para ela com alegria na retina e disse: “Tu fala português?!”. E ela também com alegria e surpresa respondeu: “E você também. E bem!”. Daí eu disse que era brasileiro, de Porto alegre, e indaguei de onde ela era aqui no Brasil. Ela disse que era mineira. Eu perguntei se de “BH”. E ela falou que não, referindo que era de Varginha. Quase sem pensar estiquei o dedo indicador direito e com uma voz roca declarei: “ET telefone minha casa”. E ela reciprocamente parodiou meu gesto e minha fala. E completou dando um lindo e largo sorriso: “que coisa boa falar com um brasileiro”. Seu nome era Thais. Estava há alguns dias em Buenos Aires e se sentia um pouco só naquela noite. Ethan, percebendo nossa sincronia nas metáforas de nossa língua, aproximou-se de nós, e abraçando Thais, tacou-lhe um beijo. Era um beijo do tipo – “olha aqui, ela já está ficando comigo, sai para lá...”. Eu fiquei dividido entre o encantamento pela menina da cidade onde os ets foram supostamente vistos, e o respeito pelo gringo que me havia sido gentil.


Conversamos mais meia hora quase que apenas um com o outro e o encantamento felizmente era compartilhado pela mineirinha. Ela tinha uma sensibilidade legal e também era inteligente; ou seja, “nos achamos”. Quase que juntos propusemos um ao outro sair daquela festa e ir caminhar pelas ruas de Buenos Aires. Desejávamos flanar com uma liberdade que as ruas de “Amsterdam” melhor aceitariam. Uma dupla liberdade, aliás, pois um beijo entre nós era algo premente. Pois, ela recolheu seu agasalho e sua bolsa, deu “adiós” a todos, e saiu de mão dada comigo. Ao cruzarmos a porta do hostel (que se chamava Tango) nos beijamos com vontade. Ganhamos a madrugada de Buenos Aires juntos. Fomos cantarolando até a rua “nove de julho” e lá começamos a cantar e dançar: “quando cheguei tudo/ tudo/ tudo estava virado/ apenas viro-me-viro/ mas eu mesma viro os olhinhos/ só entro no jogo porque/ estou mesmo depois/ depois de esgotar o tempo regulamentar...”. A menina dançou. E foi lindo. Senti-me como uma espécie de Al Paccino pós-moderno em um “perfume de mulher” à brasileira. Nada mais tupiniquim que um “viro-me-viro” para efetivar um afeto.

Jayme Camargo da Silva - primavera de 2010


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"delírio" na feira do livro...


O acesso ao direito como possibilidade de transformação social

A crítica mais especializada do direito tem duramente batido no saber jurídico dos manuais. Sustentam, com razoáveis justificativas, que o conhecimento jurídico mais qualificado não se faz presente nessa espécie da literatura jurídica. De fato, os manuais acabam se esgotando em uma eterna reprodução de lugares-comuns. Entretanto, essa posição deve ser devidamente caracterizada com relação ao seu lugar. Ou seja, essa crítica deve ser dirigida aos bancos acadêmicos das faculdades de direito do nosso país. Talvez, aos “brancos-acadêmicos” de nosso direito, futuros juristas de nossa pátria e, por conseguinte, responsáveis pela administração de nossa justiça. Por isso a necessidade que as instituições de ensino do direito refundem sua base teórica. Afinal, são as responsáveis pela formação daqueles que se responsabilizarão por nós, como dito acima, os juristas encarregados da administração de nossos conflitos. É importante ressaltar, contudo, que os litígios envolvem normalmente pessoas que, em sua maioria, desconhecem a linguagem jurídica. Ou seja, a grande massa da população brasileira sequer conhece seus direitos. Melhor dizendo, sequer reconhece seus direitos em meio aos conflitos da vida cotidiana. Daí se implica uma carência da nossa população: o excessivo tecnicismo dos operadores do direito impede que as pessoas identifiquem o que está dito nos códigos, com as suas demandas da vida cotidiana. Há uma separação, portanto, entre o mundo dos direitos que os cidadãos têm prescritos em lei, e o mundo da vida em que as pessoas de “carne-e-osso” estão. Não se estabelece, no Brasil, uma passagem fundamental, que é a transformação da “pessoa” em cidadão. Ora, os juristas pela obstrução da linguagem jurídica, possuem a sua parcela de responsabilidade pela (in)capacitação dos cidadãos. Justamente aqueles que deveriam fazer a passagem dos direitos aos indivíduos, ou seja, esclarecer os códigos no contexto concreto das pessoas, são os que reforçam a separação. Chegamos, assim, na seguinte situação: os juristas ainda muito reféns - em sua formação - do saber “pasteurizado” dos manuais, são omissos em sua aplicação do direito, com relação ao desconhecimento dos direitos pelas pessoas. Dessa conclusão nos resulta um problema de duas vias: 1) o ensino do direito deve tornar-se o mais crítico e transdisciplinar possível – visando uma melhor formação dos operadores; 2) a grande massa da população brasileira deve ser educada com relação aos seus direitos – elevando sua condição à categoria de cidadão. É, pois, na direção do segundo problema que caminha a presente publicação. E não poderia ser diferente. Cientes e conscientes do enorme divórcio entre o povo e os seus direitos, o grupo ABDO, com essa publicação, assume para si parte do problema antes descrito. Pretende, portanto, antes a atenção das pessoas mais carentes e necessitadas de instrução jurídica, às doutas autoridades da academia. O grupo ABDO percebe o acesso ao direito como uma possibilidade de transformação social. Por isso opta pelo problema das pessoas em sua grande maioria. Oxalá as pessoas conquistem a sua cidadania em nosso território. Oxalá essa pequena obra contribua para essa melhoria. Por isso um sistema mais simples possível de transmissão do conhecimento: através de perguntas e repostas. Deixemos, portanto, que o próprio leitor dialogue com o livro, assim relacionando os seus direitos e sua vida efetiva. Concluo, juntamente ao eterno Mário Quintana, referindo que para todos aqueles que acham que outro Brasil não é possível, vocês passarão nós passarinho!

Jayme Camargo da Silva,
mestrando em filosofia e ex-advogado

quinta-feira, 29 de julho de 2010

o pecado da dúvida

é pela incerteza da vida
o que se sabe
e a quem se tem
que esmorece o pecado da dúvida
leve-natural crista
que se estende a toda particular existência
de um caminho longínquo
e tamanho
avatar de uma dor
ao lado de mil amores
soa uma frágil certeza
de estar e sentir-se vivo
esperando com minhas melancolias
a única certeza que deixo nascer:
a minha morte

Lúcia Cavalli e Jayme Camargo

quarta-feira, 28 de julho de 2010

poesia


ao Vado Vergara,

pela persistência em continuar sentindo


no dia em que ela não atende

meu coração em aperto e abandono

sou colocado no mudo

na estrada destruição do sonho


não permito mais

que meu pensamento exista nela

pensamento que des-exista

na mesma medida para ela...


o amor é jogo em seu começo

e no seu começo em jogo:

angustia, dor e sofrimento

é relação de causa – sem efeito

é defeito, é puro desafeto!


desfeito o projeto não mais a protejo

não mais a penso, não a respiro

não piro pela sua ausência

foda-se meu sentimento!


ela é quem não o merece

e assim – o desmereço

o despeço em meu despedaço

o impesso de lhe dar espaço

a desnudo do meu imaginário...


Jayme Camargo - inverno de dois mil e dê (2010)

sábado, 17 de julho de 2010

ensaio de segurança pública e amor


Ao mestre Juremir Machado da Silva,

pela independência na ironia da “província”.


A beleza da Brigada


Por essa ninguém esperava. A governadora Yeda, através de sua tentativa de reforçar a tropa de choque, terminou foi chocando aos corações dos gaúchos. Logo ela, tantas vezes acusada de ser pouco feminina, de ser dura como um xiita militante. Pois, o que a governadora pretendia com a atitude de colocar 3.500 homens a mais nas ruas, certamente era reforçar sua política criminal conservadora. Em 3 anos e meio de governo, registraram-se na área da segurança pública inúmeras práticas do governo Yeda identificadas com aquilo que, em direito penal, denomina-se “direito penal do inimigo”. Isto é, em linguagem bem cotidiana, “atira e depois vê o que acontece”. Poderíamos ser mais acadêmicos, mas não é essa a pretensão ora em questão. Assim, faremos mão de outro exemplo cotidiano, sobre a pratica da política criminal do inimigo, nos últimos anos de governo. O coronel Mendes foi o comandante geral da Brigada Militar. Promotor de (in)segurança pública, causou pânico a toda sociedade gaúcha quando, frente à acontecimentos que envolvessem “grupos de pessoas”, deveria responder pelas liberdades, igualdades e fraternidades, dos cidadãos que estivessem presentes. Como sempre, quando a violência parte das instituições oficiais, elas oficializam violentos. Conferem grau de promotor de políticas públicas, a sujeitos que des-conhecem o necessário republicanismo no trato com a esfera pública. No direito penal do inimigo é necessário referir, ainda, que ele ignora o fato concreto que a violência implica necessariamente em mais violência. Um princípio verificável constantemente em nosso cotidiano. Assim, na tentativa de reforçar o “sentimento de segurança” dos gaúchos, a governadora “recauchutou” o quadro da Brigada Militar. Incrível foi a conseqüência. O quadro não só é bastante jovem, mas também é igualitário no gênero. Ou seja, começaram a ter pelas ruas da capital inúmeras jovens brigadianas. E o mais esplendido reside no conteúdo estético: muitas delas são belas. Sim. Não pensem em brigadianas como as jogadoras da seleção brasileira de futebol feminino. Não. De fato não é esse o paradigma da brigada de Yeda. Nossa tropa de choque está qualitativamente equipada de belezas. Resolvi escrever esse texto, devo confessar, pois me peguei “secando” uma brigadiana, em uma rápida ida de T7 do Bom fim à Cidade baixa. Frente ao acontecimento, não pude deixar de perceber a presença de um duplo sentimento em meu coração. De um lado estava retido pela efêmera paixão surgida por “soldada Alves”, presente no coletivo. Por outro, temor frente ao que poderia decorrer: imaginem se soldada Alves, no horizonte do direito penal do inimigo e sua máxima intervenção penal, resolvesse me dar “voz de prisão”?! Imaginem, uma mulher em nome de uma ineficiente política criminal, não perceber que cativou alguém pelo seu lado não-policial?! Seria péssimo. Só me restaria dizer que eu estava encantado pela sua formosura, e que com todo respeito, mesmo sabendo que ela estava em serviço, eu não estava, e assim não consegui deixar de restar preso, mas preso com o coração...

Jayme Camargo da Silva


quarta-feira, 14 de julho de 2010

crueldade das mulheres

mulheres cruéis...

são...

sempre...
o tempo todo...
e já... jaz
é jazz...


Vado vergara e Jayme Camargo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

o amor (sempre) tece


às mulheres que amei.


TECIDO O AMOR

A menina bebia para amortecer a dor
tragava o último suspiro de esperança
o amor tece e dá asas
amordassa e nos joga do abismo

nos julgamos no direito ao delito
da posse que o ciúme passa
à traça que corrói as formas
e deforma nosso firmamento

sentimos no peso dos ossos
amor ter sido nosso testamento
esquecida a textura dos sonhos
na ausência do passado presente

amor tecido da vida
tecido o amor
a história da menina...

Jayme Camargo

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O preço da coerência é carência de competência – “o caso” Dunga.



O preço da coerência é carência de competência – “o caso” Dunga.


O futebol não tem lógica. Dias atrás defendi esse argumento. Dunga, o treinador da seleção brasileira, escolheu seu grupo de trabalho defendendo a “coerência” como critério de convocação. Dessa forma, convocou jogadores medianos como Josué, Kleberson, Michel Bastos e Felipe Melo. Deixando de fora da copa do mundo, por sua conta e risco, valores como Paulo Henrique “Ganso”, Victor, Ronaldinho Gaúcho, Hernanes e Neymar. Também é verdade, certamente, que em futebol nem sempre os melhores triunfam. Sim, concedemos essa ressalva. Entretanto, impõe-se a reflexão, na medida que a seleção brasileira de futebol perdeu sendo pior que a seleção holandesa. Jogou mais no primeiro tempo, ressalva também importante. Porém, não suficiente a produção realizada na primeira etapa, restou pior que a Holanda no segundo tempo. Um jogo de dois tempos distintos; e distantes também. Isto é, o Brasil mandou no primeiro tempo, mas fez apenas um gol, enquanto que a “laranja” fez dois gols quando impôs o seu domínio. Fomos piores. Contra fatos não há argumentos. Dada essa conclusão, não podemos subtrair as críticas. Ao critério de Dunga, logicamente. Podemos simbolizar a “era Dunga” como treinador, na escolha de um determinado jogador, que foi uma exclusiva “invenção” sua – Felipe Melo. Vejamos o que há por trás dessa escolha. O volante joga exatamente na posição em que Dunga atuava, o que qualifica ainda mais a escolha para tal posição. Nuca havia disputado um jogo pela seleção, até que o comandante da coerência resolveu lhe dar a titularidade. Um jogador medíocre, que nunca havia tido boas passagens pelos grandes clubes brasileiros em que atuou. Com problemas de comportamento, sempre se revelou um jogador insuficiente psicologicamente. E no caso da Holanda, foi ele quem tratou de deixar a equipe em apuros, ao ser expulso em mais uma atitude conseqüente de sua marginalia. Engraçada a coerência de Dunga, não é? Deixou de fora Adriano, por exemplo, justificando pelo seu mau comportamento, mas entregou a posição que já havia sido sua na seleção, para um jogador medíocre tecnicamente e com postura de um maloqueiro. Dizem por aí que “o sujeito sai da favela, mas a favela nunca sai do sujeito”, e isso parece prevalecer em Felipe Melo. Não adianta morar em Turim. Aliás, o filósofo Friederich Nietzsche, que também habitou em Turim, foi um ferrenho adversário da coerência. Não acreditava nela como parâmetro para se compreender o universo do humano. Preferia uma “metafísica de artista” como o critério para compreensão do cotidiano. E no Brasil, como todos sabemos, o futebol é uma das essências constitutivas do cotidiano. Arte foi o que faltou, em uma seleção coerente com o seu valor. Se Nietzsche estivesse vivo, fatalmente relembraria Dunga que lutar em nome da coerência, é lutar apenas no plano de Deus. O único ente idealmente coerente. Esse, no entanto, o próprio filósofo se encarregou de anunciar: “Deus está morto!”.

Jayme Camargo da Silva

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"blitz" na Cidade Baixa...

Estado atrapalhado cidadão prejudicado!

Algumas noites dos finais-de-semana na Cidade Baixa têm sido inconstitucionais. Isto é, têm se verificado uma sutil violação aos direitos fundamentais de inúmeros cidadãos que lá se encontravam. Explico: a Brigada Militar devidamente amparada pelos fiscais de trânsito da EPTC (empresa pública de transporte e circulação), vulgarmente conhecidos como “azuizinhos”, realizou barreiras no cruzamento entre as ruas Lima e Silva e República. Durante algum tempo, toda a via da Lima e Silva (pouco além do cruzamento referido) esteve bloqueada. O Estado através de duas de suas instituições, assim, fechou todo um trecho de uma via pública sem nenhum fato que ensejasse essa medida. Transgressão nem tão sutil, pois que a partir do conhecimento de princípios como – “a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se impõe a todos” – de Maquiavel, temos presente que a violação aos direitos fundamentais acarreta na quebra do Pacto Social, instrumento simbólico de ligação entre os cidadãos e o Estado. Ou seja, a “Sociedade Civil” enquanto resultante do contrato social, é afrontada como um todo quando atos de infração às garantias fundamentais acontecem. Independente, portanto, da violação às liberdades individuais ter sido materialmente sentida apenas pelos cidadãos que ali transitavam. Sabe-se, aliás, desde a apurada teoria constitucional, que o famoso direito de “ir-e-vir” – como o populacho sustenta no dia-a-dia – caracteriza-se como direito fundamental de primeira dimensão, ou, liberdade negativa. “Negativa”, pois, são direitos de não-intervenção que o cidadão tem frente ao outro; outro enquanto todo – Estado, como também frente a qualquer outro particular. A individualidade de cada cidadão deve ser respeitada nesse âmbito de direitos, não podendo receber qualquer intervenção. Ao realizar o bloqueio em todo o trecho de uma via, sem nenhuma razão emergencial, o Estado está deslegitimando uma série de direitos que o estruturam até mesmo enquanto Estado. O mais difícil de digerir é o fato de desconfiarmos que os bloqueios, aparentemente, possuem um cunho arrecadatório, fruto do atrapalhado governo do estado. Governo que tem se caracterizado, desde seu início, pelas brigas com a própria base na Assembléia, encontra dessa forma muita dificuldade para administrar o orçamento de um Rio Grande tão complexo. As “blitz” constituem-se como um instrumento da atrapalhada gestão, para, por exemplo, tentar adimplir o décimo terceiro do funcionalismo público. O preço disso, entretanto, têm sido a infração aos direitos fundamentais dos gaúchos.

Jayme Camargo da Silva

sábado, 19 de junho de 2010

poesia do dia de chuva II

Sou a antes de tudo... Nada!
Sou a pele enfadada, o tédio
Médio que tem todo contudo
Sou sem remédio, o muro...
O furo do mundo, um ébrio!
Hiberno em sono rotundo
Quase um desmundo, eterno
Onde quero gritar, mudo...

Nada sou antes de tudo!
No riso terno da pretendente
No sonho eterno diariamente
Adio a morte nesse profundo
Construo a história de nossa vida
Fabrico a vinda de uma memória
E vou sozinho, nesta berlinda
Trazer as marcas da nossa estória...

Jayme Camargo e Lorenzo Ribas

quarta-feira, 16 de junho de 2010

sobre futebol e cotidiano


"os grandes navegantes devem sua

reputação às grandes tempestades".

EPICURO


A maior ironia da província em tempos de copa do mundo – notas sobre futebol e cotidiano.


A copa do mundo de futebol rola a bola pela primeira vez no continente africano. Copa que se notabilizou, em sua primeira rodada, por jogos burocráticos e excessivamente táticos. Carência de criatividade e de técnica – uma conseqüência quase lógica. “Quase”, pois não há lógica em futebol. Por aí também passa a magia e o encanto desse esporte. Aliás, o futebol é um movimento tão pouco preciso em seus resultados, e assim justificamos sua existência não-lógica, que faz com que às vezes um time com 5 atletas no meio perca essa faixa do campo para um time com 4 jogadores nesse setor. A contemporânea querela entre os esquemas “3-5-2” e “4-4-2”. Na África, a maioria andava cotando a Espanha como favorita ao caneco. E a Suíça foi lá provar que não é suficiente apenas com os chocolates. Mesmo sem dar um banho de bola na equipe ibérica, o chocolate já se deu enquanto o próprio resultado. Suíça 1 X 0. Não-perdendo o gancho da disputa entre os esquemas táticos das equipes, aqui pela província, o ex-técnico do internacional, o uruguaio Jorge Fossati, inclinava-se essencialmente pelo 3-5-2. Mesmo sem ter atletas qualificados para tal esquema. Persistiu no erro. Foi teimoso. Não conseguiu fazer duas partidas consistentes em 5 meses de trabalho. Foi muito pressionado. Brigou com a imprensa e não conseguiu sustentar a elegância de sua figura, vista apenas desde seus belos ternos e de seu charmoso “portunhol”. Mesmo que aos “trancos e barrancos” deixou o colorado na semifinal da Libertadores da América. Mas, Não adiantou. Terminou demitido às portas da copa do mundo, a qual não deve estar assistindo em solo gaúcho. Pois, todas as atenções do mundo da bola voltaram-se para a mãe-Africa, e o internacional ficou a procura de um novo treinador. Sonhou com Felipão. Cogitou o sempre cogitável Abel Braga. Quase contratou Adilson Batista, o denominado pelos gremistas de “capitão América”. A torcida rejeitou Adilson em terras gaúchas, exatamente pelo seu excessivo “gremismo”. E a torcida foi ouvida pela direção. Talvez pelo fato dela participar das eleições no clube, e esse ser ano de eleição presidencial no colorado. A maior ironia da província, em tempos de copa do mundo, entretanto, decorreu precisamente dos ouvidos dados à torcida, por Carvalho e demais mandatários do Beira-rio. A torcida bradou fortemente durante dois mil e love (2009): “fica Celso Roth, fica Celso Roth...”; e assim a direção colorada resolveu atender. Mesmo sem vergonha pelo movimento, foi dormir sonhando com Felipão e acordou com Roth junto ao seu lado. Para alguns, quiçá, acordou na “hora do pesadelo”. Imagine você, ir dormir sonhando com a Ana Paula Arósio (como o amigo-mestre Juremir Machado da Silva), e se levantar com a “nega-véia”, já desgastada de “anos sem-relação”?! Dada a trajetória perdedora, Roth merece tal comparação. Não que não possa ganhar. Aliás, acho que ganhará algum dia. Quem sabe seja agora que é só acertar em apenas 4 jogos. Mas, a trajetória de sua biografia não indica. Fez apenas um bom trabalho, no próprio inter, quando em 1997 ainda não possuía o enorme medo de perder. Talvez por ser um iniciante aquela época, e assim ainda ter fome e vontade de “vencer”. Sim. Poderíamos resumir o espírito de Roth na velha máxima do futebol: “o medo de perder tira a vontade de ganhar!”. Que gritem novamente os colorados, mas que dessa vez tenham os deuses da bola como remetentes desse chamado. Será necessário. Porém, como não há lógica no mundo da bola, tudo pode acontecer. Como acontece “desde-já-e-sempre” – o tempo é quem responderá.


Jayme Camargo da Silva

terça-feira, 11 de maio de 2010

Encontros e (Des)encontros


Encontros e (Des)encontros...

(São três e vinte da manhã de um sábado para domingo, que não bastasse chuvoso, foi atravessado por um feriado farroupilha na quinta-feira.)

Não encontramos na rua aquilo que devemos trazer de casa. E não estamos falando em educação. Não. Poderíamos colocar a metáfora do seguinte modo: não adianta querer encontrar no mundo exterior o que devemos trazer conosco em nosso intimo. Em certas ocasiões, imaginamos ao sair para à noite, encontrar nela alguma pessoa que nos encante. Por mais que não seja esse o único horizonte que nos mova ao nos jogarmos à balada, é inegável haver lá no fundo um resquício de desejo que o “amor-da-nossa-vida” esbarre em nossa existência. Embora já saibamos que a vida é a arte do encontro, percebemos que os inúmeros des-encontros que se dão, talvez tenham sua causa na incapacidade das pessoas de antes se encontrarem consigo mesmas. Isto é, não podemos buscar nos outros aquilo que deveríamos carregar em nosso poder. Por essa razão, quiçá, tanta gente não tenha conseguido ainda encontrar-se verdadeiramente com o outro, pois que se acaba buscando neles uma resposta às próprias carências. Seria mais profícuo esperarmos do “outro” uma espécie de plus-subjetivo, a esperar que seja algo como a resolução de nossos conflitos interiores. Fazendo uma reflexão acerca dos momentos nos quais apareceram os nossos maiores afetos, percebemos que acabaram sendo “tempos” de considerável tranqüilidade. Nossas carências são apenas “nossas”, assim devendo ser atendidas domesticamente. Não podemos ter uma relação de necessidade com o outro, vez que toda a necessidade acaba sendo expressão de exigência(s). Talvez tenhamos nesse aspecto a causa de tantas relações calcadas na posse sobre o outro, o que também explica o ciúme corrosivo que marcam tais relações. Toda a exigência implica em cobrança. Dessa forma, necessidade deve ser algo que devemos sentir tão somente por nós mesmos - à medida que assim fazemos as cobranças necessárias ao nosso próprio “eu”, exigências de fato fundamentais. Nossa constituição enquanto sujeitos, embora se verifique no “olhar-do-outro”, não pode ser – no outro. Devemos assumir a nossa existência, nos entregando a nós mesmos. Aliás, parece ser essa a importante radicalização da nossa própria condição, visto que ninguém nunca nos perguntou se queríamos nascer, o que nos situa desde sempre tendo-que-ser. O nosso projeto de felicidade existencial deve ser nosso, tendo assim seu ponto de partida estruturado em nossas próprias referências. Não podemos projetar a nossa expectativa de felicidade sobre o outro. Resulta como um fardo pesado demais. Não apenas sobre o outro enquanto outra pessoa, mas também enquanto outro lugar, outro trabalho, outro objeto qualquer de nossas vidas... Ao despejarmos tal expectativa de felicidade sobre qualquer outro que não a nós mesmos, tornamos aquilo que nos é mais próximo em algo distante e impessoal - viés característico dos objetos enquanto tais. Daí a conseqüência da angustia ser o sintoma existencial de nossa geração. Verificamos na angustia a essência de nosso tempo. Ao questioná-la, portanto, vislumbramos a explicitação do problema ora analisado. Partindo da constatação de que a angustia revela a presença do nada, a pergunta se transforma em: como o nada pode ser alguma coisa - se ele nada é? A angustia se perfaz como a presença do nada, no sentido de que quando estamos angustiados nos faltam às palavras; ou seja, as palavras “nos” são cortadas. A angustia nos corta as palavras, pois quando ela vai embora e nos sentimos plenos novamente, nos indagamos sobre o que nos acometia, e logo concluímos que “nada havia”. A angustia é, portanto, a presença do nada. E esse corriqueiro acossar pelo nada, nos mostra como os objetos são incapazes de representar a nossa existência. Explico: tendo em vista a força com que, por vezes, esse nada nos interpela, torna-se vaga e distante nossa própria realidade cotidiana. Esse desconforto acontece como decorrência da angustia tornar aos objetos impossíveis, vez que é através da linguagem que os representamos, e pela angustia nos cortar as palavras - acabamos não conseguindo dar sentido às coisas. Não pode estar fora de “nós”, em suma, o nosso projeto de felicidade, vez que assim tal projeto se constituiria em algo como um objeto. E esses tampouco são possíveis em alguns momentos – como na circunstância acima caracterizada. Nos resta, assim, uma derradeira indagação: como aquilo que é mais nosso, isto é, a possibilidade de nossa felicidade, em algum momento ser impossível e impessoal? É por conta disso que o projetar dos nossos projetos deve estar radicalmente suportado em nós mesmos. Encontraremos nos outros, dessa forma, os parceiros de projeção, aqueles que devido à afinidade compartilharemos o ser-com; mas que também não deverão fazer da sua projeção a busca de um objeto externo, que revelamos não poder residir fora da ordem interna do sujeito. Muito embora os tantos desencontros desta vida, ela ainda é a arte do encontro - consigo mesmo - espécie de “encontro fundamental”, condição de possibilidade que todos os demais encontros aconteçam...

(São seis e doze da manhã de um domingo chuvoso que começa a nascer.)

Jayme Camargo da Silva - 2008/2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Quem nunca cobrou por amor?

ao último grande amigo,

Mauricio Saldanha,

pelo insight do tema.

Quem nunca cobrou por amor?

Nós cobramos amor quando sentimos saudade. Cobramos amor quando ligamos, não somos atendidos e não temos re-torno. Cobramos amor quando chamamos no MSN e somos colocados em estado ausente. Cobramos amor quando sentimos falta. Cobramos amor quando o amor nos cobra uma atitude. Cobramos amor, também, ao vermos crianças nas ruas. Cobramos amor quando reclamamos presença. Cobramos amor quando nosso sentimento nos cobra. Cobramos por amor, quando cobramos que o outro leve um agasalho. Cobramos quando por amor desejamos que o outro nos agasalhe. Cobramos amor quando a melancolia de fim de domingo nos chega. Cobramos amor no vinho das noites de inverno. Cobramos um amor de verão para dividir calor. Cobramos flores não só na primavera. Cobramos vida no cotidiano a dois. Cobramos da vida ter um outro para que sejamos dois. Cobramos que com o tempo esses dois se transformem em três, ou, quatro. Cobramos a paz num tempo de tantas guerras. Mas também cobramos guerra, quando acomodados não evoluímos na paz. Cobramos um amor em letras garrafais. Cobramos amor quando jogados à rejeição. Cobramos na lembrança um amor que já foi. Cobramos do futuro um amor que será. Mas o que será que cobramos, será que um dia será? Cobramos locomoção quando estamos amarrados. Cobramos liberdade quando presos. E cobramos algemas quando apaixonados. Cobramos da paixão que se transforme em amor. E Cobramos paixão quando estamos entediados. Cobramos poesia sem que seja chata. Cobramos critérios para que sejam respeitados. Cobramos respeito quando nos relacionamos. Cobramos relações que tenham na essência sua verdade. Cobramos que as pessoas tenham coragem de suas idéias. Cobramos sensibilidade no jeito. Cobramos tolerância com nossos medos e carências. Cobramos que as pessoas assumam a sua existência. Cobramos autenticidade no pensamento. Cobramos amor para habitar em conjunto. Cobramos amor na divisão dos mundos. Cobramos que esse seja o melhor dos mundos possíveis. Cobramos transparência no desejo. Cobramos todos os dias, na esperança de por amor também sermos cobrados...

Jayme Camargo – outono de dois mil e dê

domingo, 11 de abril de 2010

Pequena doce quimera


in memorian”, literalmente.

Pequena doce quimera


Na casa verde de Julia

Pequenas poções de ilusão

Pequena doce quimera

Que movimenta o coração


Seus olhos verdes também

São olhos como os de “nefér”

No seu secreto desejo

Sem-briga se me quiser


Verdades em des(en)cobrimento

Suprimem o véu que separa

Um “acontecimento-aproriação”

De quem se encontra e nem repara...


Memória em feições do cotidiano

Ilustram suspiros na lembrança

Como frações de felicidade

“Denomina-à-dor” e tábula rasa.


em princípio sempre há começo

Em nosso começo um laboratório

O tempo nos fez perenes

sujeitos um à vida do outro


Não há como voltar

Neste trem já embarcamos

A “estação” que passou “verão”

Foi só partida à viagem...

Jayme Camargo, “nova-à-mente” em um outono...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O desejo da voz...


O desejo da voz...


Queria poder te ouvir e me deleitar com as palavras que emanariam da tua alma.

Seria como depois de uma tempestade

poder provar o sol refletido na grama

por sobre onde deitaríamos nossos corpos.

Ou como o arrepio que sentimos quando mergulhamos

ainda secos às profundidades dos mares.

Desde o primeiro instante no qual olhei para a imagem do teu olho

minhas retinas resignificaram-se com novos sentimentos.

Agora meus ouvidos clamam pela mesma atenção

e rogam pelas palavras sussurradas

e pelos poemas falados que constituem o cotidiano e suas minúcias.

Deves adorar o cotidiano?!

Pois sinto que teu espírito está entregue ao teu corpo

mas que teu corpo pertence aos pequenos desvãos da linguagem cotidiana.

Pequenos lugares são diferente de lugares pequenos.

Pequenos lugares reconfortam nossa alma

mesmo quando a angústia nos corta as palavras.

Afinal, essa pá-que-lavra

e dá sentido ao mundo

retirando-o de seu silêncio mudo

que constitui o começo de tudo.

A palavra.

Se pudesse, não te daria apenas a minha palavra

mas daria todas as palavras que conseguissem conduzir os sentimentos que as perfazem.

Daria-te, também, mais que a fala

daria meu silêncio para que tu abrisses teu coração

e que ele pulsasse teu sentimento nu.

Nossa nudez não seria castigada.

Nossos sonhos nossa condição de possibilidade.

Nossa transa - um emaranhado de carinho, paixão e sensibilidade.

É terna a mente que ouve seu coração.

Teu coração eternamente.

Jayme Camargo

domingo, 14 de março de 2010

lágrimas no bom fim

(enquanto isso, no último sábado na Redenção...)

lágrimas no bom fim...

"em um dia por acaso
teu passar no chafariz
meu passado se transforma
transcendência em chão de giz
numa tarde não-azul
nosso céu tem tom de gris
carregado pelas nuvens
chovem lágrimas em mim..."

Jayme Camargo, Atahualpa Fidel e Eduardo Cunha

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

pequena nota sobre o amor II

A minha teimosia é uma arma pra te conquistar.


Jorge Ben



Procura-se um amor que procura um amor...


Procura-se um amor que em primeira mão divida o cotidiano. Que se divida no cotidiano. Que Se reparta. Que Se entregue. Que não parta frente à natural dificuldade das diferenças. Que entregue sua natureza. Procura-se um amor que finalmente nos escute. Que nos sinta. Que pressinta o momento de ser forte. Que saiba antes da dor preparar o terreno, e após ela tenha a sensibilidade do colo. Que tenha a delicadeza no cafuné ao dormir. Que tenha romantismo na pegada. Que não tenha receio em se apegar. Procura-se um amor que abra os sentimentos. Que se abra ao viver cada momento. Que tenha o prazer em conosco perder seu tempo. Que tenha coragem em repartir seus tormentos. Que tenha conosco o fim da angustia. Que nos tenha como um novo começo. Que nos seja o princípio do belo. Que nos faça um bolo no dia de chuva. Que reparta à pipoca no cinema. Que nos dê à mão no beijo do filme. Procura-se um amor que nos divirta. Procura-se um amor Que se possa conversar. Que nos recolha conchinhas no mar. Que também acredite que o “amor aumenta com o ar”. Procura-se um amor que tenha similitude no impacto das almas. Que tenha personalidade na discrição. Que tenha reciprocidade na saudade. Que nos mande mensagem no meio da noite. Que nos procure primeiro ao receber uma novidade. Procura-se um amor que nos leve para dançar. Que dance conosco a vida. Que junto à gente construa a história de nossas vidas. Que na distância fabrique a vinda de uma memória. Que a nostalgia se dê como esperança. Procura-se um amor que “no choque entre o azul e o cacho de acácias” deixe tudo “lindo”! Que faça Caetano re-fazer seu poema. Que fizesse “Chico” lamentar não ter conhecido. Procura-se um amor que não tenha medo. Que se jogue. Que se declare. Que a única forma de jogo seja jogar junto com a gente. Procura-se um amor que não só nos faça bem, mas que nos torne melhor. Que melhor seja impossível. Que nos transforme como disse “Drexler”. Que nos re-funde a partir do sentimento. Que se funda com a nossa vida. Que compartilhe seus movimentos. Procura-se um amor que preze nossa liberdade. Que acredite no valor do respeito. Que se encante pelo nosso jeito. Que tenha jogo-de-cintura na adversidade. Que tenha tranqüilidade para fornecer sossego. Procura-se um amor que nos surpreenda. Que não feche os olhos antes que adormeçamos. Que não se arrependa em viver-à-vida. Que quando não estivermos esperando – chegue. Que nos carregue em direção às nuvens. Que nos traga a consistência na leveza. Procura-se um amor que finalmente seja um delicioso “pequeno lugar”. E que lá “Cartola” seja trilha sonora. Procura-se um amor que seja equilibrado sem ser chato. Que seja louco sem nos colocar em risco. Que seja “meio bossa nova e rock´n roll”. Procura-se um amor que antes seja bela que bonita. Que seja interessante. Procura-se um amor que na base há lealdade. Que tenha alteridade em seus valores. Que seja responsável com aquele que cativamos. Procura-se um amor que se acredite. Que credite suas fichas em nosso centro. Procura-se um amor que seja por dentro, mas Que não tenha medo em botar para fora. Que dirija nossa vida quando estivermos bêbados. Que nos cuide quando convalescemos. Procura-se um amor que combine com a nossa casa. Que o astral seja harmonia. Que as noites de inverno seja acolhimento. Procura-se um amor que seja sagaz na melodia. Que no fim da tarde nos procure para saber de nosso dia. Procura-se um amor que também esteja nos procurando. Que esteja vivendo no mesmo “tempo”. Que não seja mais um futuro-do-pretérito. Que traga consigo o “tempo do amor”. Procura-se um amor que nos faça perder a noção do tempo. Que nos descontrole pelo envolvimento. Procura-se um amor que... Procura-se um amor... Procura-se um... Procura-se... Procura... Pró-cura... Quiçá o amor exista na “cura”.


Jayme Camargo da Silva – 20 de fevereiro de 2010, às 18:38.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

pequena nota sobre o amor


(já de algum tempo tenho como princípio não escrever sobre o amor. ou, melhor, evitar escrever sobre tal tema. o filósofo francês Jacques Derrida em um livro-conferência chamado "do espírito", interpretou o significado de "evitar" na obra de Martin Heidegger. segundo essa leitura, Heidegger evitou falar sobre o espírito e assim falou não-falando; isto é, evitar em Heidegger pode ser lido como "falar não falando". voltando à escrita sobre o tema do amor - escrever não escrevendo. evito desde algum tempo, assim, e tenho minhas razões. primeiro que acho o tema mais delicado de todos. quando comecei a escrever poemas, quase todos versavam sobre o amor. e quase todos eram poemas fracos. dependentes das rimas, acabavam sendo cópias dos mestres que eu havia lido e que sempre foram minha referência na poesia (Vinícius, Neruda, Dos Anjos, Pessoa e Bandeira). desse começo sofrido retirei uma lição: o amor não é fácil nem enquanto tema do poema... além disso, enquanto filhos de uma língua rica nas metáforas e não menos grandiosa na qualidade de seus poetas, creio que quase tudo de maravilhoso sobre o tema já foi construído. evito falar sobre o amor, também, porque não acho digno do tema desprezá-lo em construções como "amor, flor e dor". tais rimas não cativam mais a minha poesia... acredito que se não for com sagacidade e "interessância" suficientes, deve-se evitar falar sobre o amor. há mais ou menos um ano e meio não escrevia sobre esse sentimento. tal vazio foi interrompido no sábado último. percebi que estava "cuspindo" a poesia ao caminhar pela província, e que seu tema mais delicado era o tema de meu delírio... estava bebado do sentimento. eis que surgiu uma prosa poética que, talvez, estivesse amadurecendo em minha alma desde este um ano e meio de ausência do amor em minha escrita. ou seja, durante este tempo, quiçá no horizonte de Heidegger, falei não-falando... mas eis que chegou a hora. ao menos na escrita chegou o "tempo do amor. quem sabe amanhã - nos "delírios na província". amor, quem sabe amanhã... )

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

VERÃO - Ferreira Gullar

ao Lorenzo Ribas, pela formatura,
mas também pela "existência" na poesia.

(a despeito de não ser uma tradição dos delírios na província, o post abaixo não é próprio, mas do genial poeta Ferreira Gullar)

depois de seis dias ausente da província - mas presente à encantadora praia da Gamboa, cheguei ontem ao começo da noite, e ainda na free way recebi a ligação do querido amigo Lorenzo Ribas, relatando que havia recebido o "canudo" pela conclusão do curso de filosofia na UFRGS. bebemos no Parangolé e, em um dado momento, Lorenzo recitou esse belo poema de Ferreira Gullar sobre o verão, mas em especial sobre fevereiro...


VERÃO

Este fevereiro azul

como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta da resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a Avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla emorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro ainda em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração - resiste.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

os melhores amigos da província...

aos meus amigos...


juju pelo tempo de estrada. vini-maloney pela elegância. cadu por ser um "novo grande". primaninha pela leadade. fabio alemãozinho pela cumplicidade. lucimar pela discrição. "vini e lizi" por serem os vizinhos do coração. lucia cavalli pelo vínculo. felipe pimentel pela simplicidade na complexidade. pedrão pela loucura na "acadêmia". gui-gui pelos jogos de botão aos dez anos de idade. atahualpa pelo companheirismo. "cabelo" pela categoria. gabriel diniz pelo constante apoio. pablo pela harmonia na melodia existencial. aline "medi-única" pela coragem da irreverência. ronaldo pela poesia na essência. leozinho e lô por serem os "amiguinhos". lorinha por ter sido o primeiro grande. fabiano-anão pela instituição do paradigma. lorenzo ribas pela identidade na diferença. felipe santos pela maturidade do deboche. vado vergara pelo compartilhamento da poesia. duda cunha pela "redenção". juju pela sagacidade. vini-maloney pelo constante acolhimento. cadu pela maravilhosa divisão do cotidiano ultimo. primaninha pelo inesgotável o "amor é a base". fabio alemãozinho pela justa alteridade com o mundo. lucimar pela tranquilidade na maturidade existencial. "vini e lizi" pela vizinhança pós-moderna. lucia cavalli pela arte na juventude. felipe pimentel pelo gabarito das escolhas que faz. pedrão pela transparência. gui-gui pelos 25 anos do mesmo lado da rua. atahualpa pela diplomacia. "cabelo" pelo jogo-de-cintura aliado a disciplina. gabriel diniz pelo arriscar um investimento subjetivo. pablo pelo "groove" na pegada. aline "medi-unica" pelo critério da "possibilidade do roça-roça". ronaldo pelo resgate da poesia. leozinho e lô pela eterna esperança nas crianças. lorinha pela incomensurável contribuição inicial. fabiano-anão por ter acreditado. lorenzo ribas pela inconteste afinidade nas sensibilidades. felipe santos pela "nego-velhice". vado vergara pela alma "sô Frida Khalo por aqui". duda cunha pela possibilidade de juventude com tranquilidade.

eles fazem absolutamente toda a diferença.

Jayme Camargo da Silva

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Simpatia é quase amor – notas sobre o cotidiano, mágica-da-vida e outras memórias...


“Penso, logo existo – é a causa do
crime contra danço, logo vivo.”
Eboussi Boulaga


Simpatia é quase amor – notas sobre o cotidiano, mágica-da-vida e outras memórias...

Combinamos uma mistura dos laboratórios. De um lado viria o laboratório da memória. Do outro, o laboratório do cotidiano. Isto é, mescla da neurociência com os pequenos lugares formadores de sentido na realidade. Mas a ciência era o que menos importava. O essencial residia na “simpatia é quase amor”. Sim. Sexta à noite antes de sair para dançar, o jogo-de-cintura é mais fundamental que o intelecto. Eu mesmo demorei um tempo para entender. A “noite” não é o lugar do discurso. O discurso da noite é a possibilidade de “dançar”. E utilizo dançar em sentido amplo. Dança-se mesmo sem saber dançar. Dança-se ao se debochar com o fundamento, por exemplo; e também se dança sorrindo e fazendo sorrir. Não é o timing de se falar sério. Assim o encontro dos laboratórios fluiu. E fluidez é a propriedade que descreve a mistura. Logicamente, a famosa CNTP – “condições normais de temperatura e pressão” – deveriam ser observadas. É sempre uma segurança da validez do experimento. Ao menos eu creio. E não poderia possuir um local mais apropriado a CNTP do que a residência (no) verde. Uma casa verde poderia ser lida como a esperança na habitação. O verde, desde sempre, nos foi apresentado assim. E naquele local combinado com o sutil tom pastel que repartiam as paredes, parecia refletir a “vibe” de quem lá habitava. Particularmente, senti uma sinergia entre a consistência da força e a leveza da sensibilidade. Aliás, contrariando até mesmo meu filósofo de formação, Martin Heidegger, diria que ele estava enganado ao dizer que a “ciência não pensa”. Heidegger estava se referindo ao fato da ciência não pensar a “diferença”. Que, segundo ele, se daria fundamentalmente no homem. Pois, na junção dos laboratórios, o verde também significou o acolhimento da diferença. Até a ciência existiu na abertura à diferença. E, assim, a ciência existiu concretamente naquela mesa-redonda de misturas. A harmonia que se deu não foi interrompida nem pela divisão temporária dos grupos quanto à festa a ser feita. Nos dividimos, mas não nos re-partimos. Não partimos mais, dada a eficácia das misturas. E assim nos reunimos novamente no meio da madrugada. Os tubos de ensaio e pipetas do povo do laboratório do cotidiano estavam inundados de energético e vodca. O que levou a festa até a manhã do amanhã daquela noite. A diretoria brindou a completude. A completa atitude acolhedora que aconteceu. Atitude é tudo. É “atitudo”! Talvez antídoto contra a falta de experiência... E mais que isso, a raridade de se conseguir reunir uma gama de pessoas todas elas interessantes. Dançamos, cantamos e nos divertimos. Aquilo que outrora fora mensagens-de-texto passara a se concretizar como um acontecimento. E os acontecimentos fundamentais costumam nos questionar. Quiçá mudar o rumo das trajetórias. Enfim, se Heidegger acerta ao menos em dizer que o sentido do ser é o “tempo” – então o tempo dirá! Voltamos e chegamos ao mesmo tempo, dessa forma, à “simpatia é quase amor”. Dados esses acontecimentos, coloquei de nick no meu MSN tal frase. Falei com a Juju sobre, pois sei que ela é muito partidária desta filosofia. E, assim, concordamos mais uma vez. Detalhe é que desde sábado está lá. “Simpatia é quase amor”. Esses dias eu e a Juju quebramos a cabeça para lembrar qual a música que tem essa frase. Ficamos pensando um tempão, mas mesmo assim não lembramos. Daí que hoje - quarta-feira - uma amiga veio me dizer no MSN, “bah, viu que o Pedro Bial falou ontem no BBB (Big Brother Brasil) que ‘simpatia é quase amor’?!” E eu respondi que não havia visto o programa. Mas fiquei surpreso com a co-incidência. Pois toda a “coincidência”, é uma dupla incidência. Daí ser uma “co-incidência”. Elas há muito habitam o laboratório do cotidiano. Eu e Juju já vivenciamos tantas que eu acabei cunhando um nome para tal fenômeno, a saber, “mágica-da-vida”. Quem há muito me conhece, há muito partilha desta viagem. A mágica-da-vida exerce seus encantos quando grandes acontecimentos se dão no cotidiano. No domingo, já havia tido outra vivência, quando em um encontro das diretorias, um amigo, que seria apresentado, já era há muito conhecido. Grandes encontros quase sempre implicam em grandes acontecimentos. Quando as “co-incidências” acontecem é porque a mágica-da-vida permeia aos fatos. Nesta mesma quarta-feira, saí para almoçar, e, depois, passei na casa de um amigo. Liguei para a Juju, que está em SP, para narrar a mágica-da-vida do simpatia é quase amor. Ela mais uma vez sorriu frente aos idos desses dias de janeiro. Não havia mais como sair da memória. Quando a magia da vida impera, abre-se um pequeno lugar entre a nostalgia do passado e a esperança do futuro. Felizes aqueles que lá conseguem habitar. A derradeira certeza veio quando, ao sair da casa do Ronaldinho, após o almoço, resolvi fazer algo que não faço faz mais de ano. Depois que meu “i-shufle” estragou, não ouvi mais música nos meus movimentos cotidianos na província. E, há mais tempo ainda, não ouvia rádio FM no caminhar pela província. Rádio mesmo só para a minha relação com o futebol, ou seja, só AM. Mas neste começo de tarde resolvi ligar na FM. Acho que era na FM Cultura - 107,7 -, e estava tocando uma canção do Lenine. Estava sendo executada pelo próprio acompanhado de Elba Ramalho. Era uma música que eu conheço já de outrora. Passei a caminhar pela José do patrocínio e cantarolar. De repente me percebi cantando “alô, Carlos Cachaça, “pedra noventa”, falou... Valeu Rio e Bahia... simpatia é quase amor...”. Era Lenine. “Lá e Cá” é o nome da canção. “Lá” na memória, “cá” no cotidiano. Era o Bial e seu filho BBB. Era a mágica-da-vida trazendo mais uma confirmação. Estamos em um tempo de misturas essenciais. De misturas existenciais. Só a memória no cotidiano assegura a possibilidade da nostalgia. Só o cotidiano na memória qualifica a experiência dos “pequenos lugares” que se criam na vida.

Jayme Camargo da Silva.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

sobre Frida Khalo e outras almas sentidas...


Sô Frida Khalo por aqui.

Se o triângulo tem três ângulos

Sou quadrado e sem rumo

Perdido no tempo e ausente no espaço

Aos poucos me desfaço

Me desvelo transparente

Interpreto meus passos

Presente em meu passado

Me revelo no relevo da vida

Da minha ida não levo nada

E da minha volta me revolto

Minha alma é minha lama

Mas acalma minha volta sem ida

Revolta apartada – partida

Dado viciado - grande jogada

Se é pra mentir:

Minha alma é penada

Não teme despedidas

Jogada na vida sabe que morre

Sô Frida Khalo por aqui.

JAYME CAMARGO E "VADO" VERGARA

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

sobre a dedicatória do texto "Do sushi ao prato feito"...



...eu só poderia legitimar meu último texto, dedicando àquele que legitimamente sempre esteve no Moinhos, pois lá nasceu e cresceu, nunca restou afetado por tal condição, seja positiva ou negativamente, e, ainda, quando desejou, foi de chinelo de dedo em qualquer espelunca da CB e não perdeu jamais a sua elegância...


(muitos beijos ao Felipe!)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

a beleza da mulher ainda reverbera...



“A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados econômicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ter efetivo perde o seu prestígio imediato e a sua função última. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e diretamente dependente do poderio social obtido. Somente naquilo que ela não é, lhe é permitido aparecer”.

Guy Debord, “A Sociedade do Espetáculo”.



A BELEZA DA MULHER (de como se constrói o poder na sociedade da aparência)


O cotidiano mostra freqüentemente que o tratamento que damos às pessoas não acontece de forma igual. Por mais que os códigos sociais teimem em prescrever a igualdade, nossa natureza não está nem um pouco preocupada com tais determinações. Devendo ser entendida a nossa natureza, a partir daquilo que podemos conceber como a “aposta grega”, a saber, a definição de Homem como animal racional, tendo como ponto de partida a capacidade de discriminar o “verdadeiro” do “falso”, como também o “certo” do “errado”. Essa referência se faz importante, à medida que todo o desenvolvimento do pensamento ocidental foi um constante debate com a fundamentação de Homem exposta pelos gregos. Entretanto, ao salientarem a racionalidade como traço decisivo para o ser humano, os gregos esqueceram a também constitutiva animalidade. Relegaram para um segundo plano, dessa forma, aspectos como a nossa percepção sensível (nossos sentidos). Talvez temerários exatamente daquilo que hoje em dia se tornou à regra-do-jogo: a atividade de conhecer mediada pela(s) aparência(s). Segundo os gregos era impossível conhecermos o verdadeiro meramente pela percepção sensível. Todo o juízo oriundo do nosso assentimento é, no melhor dos casos, acertado por acidente. Platão dizia que aquilo que os sentidos nos mostram é a nossa mera opinião (doxa). O conhecimento que, por definição, é sempre o conhecimento do verdadeiro, tem como fundamento os objetos da realidade. Isto é, o mundo é quem definirá se determinada crença sobre ele procede ou não. Impossível conhecer, portanto, através dos sentidos, vez que eles não são o fundamento do conhecimento. Expressam apenas as nossas opiniões acerca do mundo. Importante esclarecer que os objetos da realidade são tudo aquilo que se opõe a nossa alma - a nossa subjetividade. Enquanto somos sujeitos do conhecimento, o conjunto das demais coisas existentes constitui o mundo. Assim, todo juízo que fazemos (sendo ele em pensamento, oral ou escrito), é um juízo sobre o mundo. E será verdadeiro, dessa forma, apenas se revelar de fato como o mundo é; independente ao que nossa sensibilidade manifesta acerca do objeto em juízo. Creio termos chegado à “beleza da mulher”.



É um fato indiscutível que as mulheres bonitas desfrutam de privilégios nas sociedades ocidentais. Por exemplo: são inúmeras as vezes que estamos em um local público, e uma mulher bonita é atendida primeiro ou com mais dedicação pelo funcionário em questão. Essa é a essência do questionamento ora destacado, ou seja, será verdadeiro o juízo feito pelo funcionário acerca da mulher, ou será uma ilusão alimentada pela possibilidade do falso - sempre tangente aos nossos sentidos? Lendo a circunstância de outra forma: o que é mais importante para uma pessoa, àquilo que poderíamos chamar a Verdade da Beleza, ou, a beleza da Verdade? Melhor fosse cogitar, quiçá, o que seria prioritário não para um determinado sujeito em específico – solipsista – mas talvez para a nossa geração. Portanto, para nós enquanto civilização. Os gregos, como destacado, tinham horror ao “falso-sofístico”, essência do saber-aparente; excluíam, portanto, a possibilidade de se conhecer verdadeiramente pelas aparências. Aliás, há quase um século o homem se questiona acerca de seu “mal-estar na civilização”. Freud bem sabia do antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização – tema principal de seu livro. Relendo a questão que se nos impõe, temos em nosso atual cotidiano um antagonismo irremediável entre a Verdade da Beleza e a beleza da Verdade. Verificamos a supremacia da primeira desde o nosso animal instinto individual. Já a beleza da Verdade se impõe como uma necessidade frente ao nosso desafio ético de dar certo enquanto civilização (cultura).



Não pretendemos encontrar uma resposta que corresponda corretamente à complexidade evidente do problema; pois além de questionarmos a linearidade característica de toda correção, não partilhamos nessa exposição de um constitutivo ideal de progresso. Nossa pretensão é a necessária clarificação do problema analisado. Acreditamos, assim, que às possíveis respostas passarão necessariamente por essa genealogia do problema. E o problema talvez resida essencialmente em nossos olhos. Nossa cultura pode ser vista como um “ensaio sobre a cegueira”. Saramago parece com-partilhar desse argumento. Ou seja, somos todos reféns da “beleza da mulher”. Nossos olhos são escravos da ditadura que uma mulher bonita impõe sobre o resto. Ditadura da Verdade da beleza que nos joga às trevas; é importante a referência. A verdade da beleza da mulher faz tábula rasa, e se constitui desde sempre como um “jogo-jogado”. Com a qualidade de sempre, Victor Hugo enunciou que “admirar uma mulher é sorver de seu veneno”. Somos literalmente seqüestrados pelo veneno que se revela a beleza de uma mulher. Nossa experiência cotidiana permite até mesmo dizer que a essência da beleza é a beleza da mulher bonita. Há implicações, contudo, oriundas dessa condição. Devido à força simbólica que se manifesta nesse poder - o fenômeno surge como uma questão fundamental. Aliás, “relações de força” revelam nossa essencial vontade de poder. Assim percebemos a influência decisiva de Nietzsche em Foucault. A beleza da mulher é pura expressão da vontade de poder constitutiva da condição humana.



É importante descrever sob um outro importante aspecto, a conseqüência de nossa condição. As mulheres, devido ao fato de serem olhadas, não se desligam nunca do antes referido “jogo-jogado”. Ao se constituírem como o obscuro objeto de desejo - dos olhos de todos - as mulheres estão sempre “jogando”. Há um determinado dia na vida da mulher (que possivelmente ocorra quando ela ainda é uma menina), no qual ela se percebe olhada pela primeira vez. Quando a mulher se percebe desejada pela primeira vez. É nesse momento ligado um “botãozinho”, que na maioria das vezes jamais é posto em “stand by” por elas novamente. Mas essa é só uma parte das implicações. Pois caso fosse apenas isso, não haveria tanta angústia, carência e desamparo entre “as donas do poder”. Essas três características bem típicas de nossa época acabam se perfazendo como a dificuldade das mulheres de estabelecerem alguns laços de cumplicidade. Laços, por exemplo, como os que se verificam em algumas amizades entre os homens. Aquele desligar o “botãozinho” de competição, e se entregar para a transparência de uma relação de parceria e cumplicidade concreta. O tão estimado laço do ser-com. É costumeiro ouvirmos amiúde que não existam relações de amizade que se comparem às dos homens. Se dois homens possuem o vínculo da amizade, então há um desligar de qualquer competição. Por isso ressaltamos acima, serem “todos os olhos” voltados às “belas”, a medida em que os olhos das “outras” também possuem essa direção. Verificamos esse detalhe, na intensa disposição à competição constitutiva do universo feminino. Desligar o “botãozinho” da competição. Eis a essência do problema. Como as mulheres apenas ligam e depois nunca mais lembram desse dispositivo, acabam pagando um delicado preço que se manifesta nos sintomas de nossa geração. Falamos em angústia e afins, mas poderíamos referir a contumaz escassez de relações não-descartáveis que pré-dominam nosso cotidiano. Ao nos relacionarmos da forma como estamos, nos relacionamos com o “descartável” de cada um. Finalizamos novamente com a genialidade “hugoana” nos “Trabalhadores do Mar”: “o corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real.


Jayme Camargo da Silva.