sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

VERÃO - Ferreira Gullar

ao Lorenzo Ribas, pela formatura,
mas também pela "existência" na poesia.

(a despeito de não ser uma tradição dos delírios na província, o post abaixo não é próprio, mas do genial poeta Ferreira Gullar)

depois de seis dias ausente da província - mas presente à encantadora praia da Gamboa, cheguei ontem ao começo da noite, e ainda na free way recebi a ligação do querido amigo Lorenzo Ribas, relatando que havia recebido o "canudo" pela conclusão do curso de filosofia na UFRGS. bebemos no Parangolé e, em um dado momento, Lorenzo recitou esse belo poema de Ferreira Gullar sobre o verão, mas em especial sobre fevereiro...


VERÃO

Este fevereiro azul

como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta da resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a Avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla emorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro ainda em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração - resiste.

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