segunda-feira, 18 de maio de 2015

livros

Livros para o outro (ao vencedor as “melhores” batatas)
Ontem fiz uma coisa muito legal. Comprei 46 livros para premiar um vencedor. Comprei livros para alguém que ainda não existe, pois o concurso ainda não se realizou, isto é, o vencedor ainda é apenas uma ideia metafísica – muito embora já seja o horizonte de todos os concorrentes. Escolhi livros muito legais, tal como se estivesse comprando para mim. Poderia ter resolvido com comodidade e escolhido por uma lista da Internet, que nem sequer trazia o nome dos autores. Porém, fui até a livraria e escolhi como se estivesse a montar minha biblioteca. Foi lindo. Eu nunca na minha vida tinha comprado 46 livros de uma só vez. Todos novinhos. Com aquele cheiro maravilhoso de livro novo. Autores como Maquiável, Robert Alexy, Boaventura de Sousa Santos, Norberto Bobbio, para citar apenas quatro na imensidão dos 46. Aliás, um super agradecimento à gentil gerente da Livraria Leitura, não apenas pela atenção dirigida, mas também pelo excelente atendimento de sua equipe. Eu amo muito os livros... Devo boa parte da re-fundação existencial que outrora fiz em meu próprio ser, devido a sua existência em minha vida. Nesse contexto, foi uma tarde de amor aos livros mesmo não sendo o destinatário desses passaportes literários. Afinal, a leitura sempre nos desloca para outro lugar, na medida em que lendo o ainda não lido construímos novos sentidos. Acredito que existam dois modos fundamentais de conhecer culturas, a saber, lendo e viajando. Só posso ler o tempo todo...
Jayme C

atitude rock'n roll

Nietzsche e a atitude rock'n roll
Li uma crítica de um especialista em música que enxovalhou a “Banda do Mar”. A razão essencial, a falta de atitude na “pegada” da banda. Debochadamente, o autor chegou a chamá-la de “bunda do mar”, eu ainda não tinha escutado a banda. A partir do que li, escutei diversas músicas e achei bem razoável. Acho que têm bandas fazendo canções muito mais chatas e muito mais sem conteúdo, candidatas mais aptas à fúria debochada da intelligentsia musical.
O ponto, entretanto, é outro. O que de fato me incomoda é a tese que povoa o imaginário de uma galera por aí, a qual revela que apenas e exclusivamente os rockeiros têm uma postura crítica perante a vida. Essa ideia tanto se faz presente que temos a expressão cotidiana: “atitude rock ‘n’ roll”. Talvez no passado essa forma de linguagem representasse um mundo. Porém, o tempo sempre se encarrega de modificar as práticas e revelar algumas petrificações na linguagem. Ou seja, a atitude rock ‘n’ roll não está mais, necessariamente, nas bandas de rock e em seus seguidores. Ela também está no samba (música identificada com vários grupos de resistência étnico-antropológica), está no rap (tal como no samba), está na MPB, em seus acontecimentos repletos de conteúdo, tais como em Otto, Lenine, Baleiro, Criolo etc.
Perante a vida, a alternativa é a atitude nietzscheana. Ora, um dos alvos do filósofo alemão, considerado o psicólogo da cultura ocidental era a hipocrisia oriunda da moral cristã. Nietzsche tinha um colorido desprezo pela nossa condição de aceitação tácita dos valores postos. Em outras palavras, pela incapacidade do ser humano de questionar os valores (im)postos previamente aos fatos que atravessam a nossa existência. Desse modo, segundo ele, reproduzimos uma moral de escravos, no sentido de que estamos sempre esperando uma espécie de autorização senhoril (uma permissão que venha do céu, ou da nossa razão) para vivenciarmos as nossas próprias percepções da vida. Dada essa condição, interpretamos a nossa existência a partir de critérios exteriores a nós mesmos. Não nos entregamos às nossas próprias afecções; e, assim sendo, na hora do contato com o outro, somos hipócritas.
A tal “atitude rock ‘n’ roll” sempre me passou algo nietzscheano no horizonte da desconstrução da hipocrisia… Quiçá, daí derive a minha forma de referir na linguagem cotidiana a atitude como nietzscheana. Acho que é possível gostar mais do pandeiro do que da guitarra e ter uma postura crítica na vida. Já dizia Bezerra da Silva, um dos maiores “roqueiros” da música popular brasileira: “malandro é malandro, mané é mané, pode crer que é”.
Jayme C.

MAIORIDADE PENAL

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
A questão da redução da maioridade penal reascende à tensão na sociedade brasileira. Os grupos conservadores, ao sustentarem a redução, defendem basicamente uma melhoria no controle da violência. Em um contexto mais amplo, situam-se entre aqueles que defendem o porte de armas para civis, o endurecimento das penas, o encarceramento para usuários de drogas. Sua justificativa é sempre a mesma: a insegurança pública deve ser contida através da simples expansão do Estado-penitência. Segundo essa leitura, a violência deve ser combatida com mais violência.
Uma das primeiras lições que se aprende em Criminologia, revela que o crime possui origens “bio-psico-sociais”. Portanto, um fenômeno que tem uma realidade complexa, ou seja, não linear. Assim sendo, há uma inconsistência entre a proposta conservadora de uma resposta simples através do Direito Penal, para um problema complexo como o da violência urbana. A sociedade brasileira tem uma imensa gama de pessoas sem os direitos fundamentais sociais garantidos pelo Estado. Saúde, educação, alimentação, saneamento básico, enfim, o mínimo existencial para que um ser humano viva com dignidade.
Se um sujeito não possui a possibilidade de viver com dignidade, então podemos estar perdendo mais uma pessoa para a barbárie. Com muita sorte não perderemos a todos nessa condição. As biografias das pessoas e suas práticas, sabidamente, são um critério diferenciador. Porém, os que perdemos para a violência, perdemos por desnutri-los em seu “bios”, violentá-los em seu “psico” e abandoná-los no social. Façamos um exercício de ficção: imaginemos que a pessoa nessas condições tem 16 anos e que seu problema é simples de ser resolvido: cadeia. Devido ao caráter seletivo do Direito Penal, encarceramos sem nenhum pudor aos pobres, negros e desvalidos. É uma irresponsabilidade coletiva encarcerarmos os nossos jovens. Desse modo, estaremos reafirmando a nossa omissão com os jovens pobres, com os jovens negros, isto é, com os nossos jovens raquíticos em seus direitos básicos. A não redução da maioridade penal é a possibilidade de salvarmos o que resta da nossa dignidade enquanto sociedade civil.
Jayme C.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

medo, loucura & amô

MEDO DAS MULHERES QUE TÊM MEDO
Tem um tipo de mulher que eu prefiro não cruzar: as que têm medo e ato contínuo são loucas. Que têm medo de se entregar, de se jogar na felicidade porque vão perder um suposto controle. Aquelas que ganham amor e carinho e em troca te devolvem loucura. Não a loucura gostosa, meio Bossa Nova e Rock’n Roll e que não nos oferece riscos. Falo da insanidade de colocar o teórico na frente das práticas, as pré-visões antes da sensibilidade. Mulheres que fabricam problemas para terem uma desculpa para não investir no gostar. Escrevo desde um ponto de vista heterossexual, pois obviamente existem tantos homens quanto às mulheres nessa condição. Nesses casos, a relação vira um jogo jogado, perdido...
Uma das maiores merdas humanas é quando gostamos de alguém, mas não temos a maturidade de deixá-lo nos gostar. Há mais de 20 anos Herbert Viana já avisava – “saber amar é saber deixar alguém te amar”. E o ponto aqui não é dorzinha de cotovelo de quem foi rejeitado. Que, aliás, é super justo que aconteça, na medida em que inúmeras vezes os gostares não coincidem. Entretanto, quando dois sujeitos se gostam e não ficam juntos porque um dos dois enlouquece e não consegue se permitir a vivência afetiva, daí é foda! Acho que deveria existir algo como um “psicotécnico do amor”, prévio a qualquer sentimento nascente. Isto é, ao começar a gostar de alguém deveria ser feita uma avaliação para atestar a sanidade afetiva de cada um. Não dá para aguentar alguém que super entra na sua vida, passa a ter escova de dente em sua casa, te olha com paixão e devoção e, subitamente, um dia se acorda zangada por algo apenas imaginário.
Certa vez, uma garota veio me dizer que o fato de achá-la uma das mais interessantes que havia conhecido naqueles tempos, havia a desagradado. Algo como – “foi muita responsabilidade para mim”. Que esse era o motivo central dela ter pirado. Nesse ponto parece habitar uma característica constitutiva de quem se com-porta desse modo, a saber, a loucura imaginária/imaginada nunca é percebida pelo próprio louco, isto é, ele jura que as suas razões são reais. Aliás, o sentimento sempre implica em responsabilidade, ao passo que sabemos ser uma verdade da vida que a subjetividade implica e a objetividade explica. Portanto, se o Pequeno Príncipe tinha razão e de fato somos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos, fica a dica: cuide da sua loucura para não (inter)ferir (n)o seu amor.
Jayme C.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

amor & amizade

As lágrimas da amizade

No fim do ano de 2010, um episódio vivido com um amigo constituiu muito significado para nossa amizade. Ele chegou entristecido à minha antiga casa (Bombonera do jaymim), devido ao término de seu relacionamento. Naquele momento, ao me escolher para dividir as suas lágrimas e abrir o coração, percebi o quão importante eu era para ele. Nas amizades em geral, é um momento lindo quando sentimos a concretude do amor fraternal vindo do outro.

A sua tristeza era justa. Tratava-se de um sentimento que sempre repousa sobre os que gostam e se separam em algum momento. Naquela tarde/noite eu lhe disse que ele encontraria uma pessoa muito mais afinada com o mundo dele, e não deu outra. Sua atual namorada é uma mulher incrível e os dois formam um dos mais lindos e inteligentes casais que conheço. Entretanto, um chamamento à realidade foi feito, ao passo que após um momento de projeção/representação de amor, esse era o melhor horizonte para o meu querido amigo.

Minha principal preocupação com meu irmão era que ele desconstruísse a figura de sua ex. Que ele passasse a perceber as incompatibilidades entre eles, bem como as múltiplas possibilidades que estavam abrindo-se a partir daquele rompimento.  Com muita polidez, tentei demonstrar como existiam diferenças fundamentais no modo de levarem o cotidiano. Sem estabelecer juízos morais sobre ela, preocupei-me em destacar as múltiplas dificuldades que a diferença de maturidades gerava. Não que ele ou ela fossem muito mais maduros um que o outro. Porém, diversas vezes, acontece das pessoas terem maturidades distintas entre si. E caso não ocorra o encaixe complementar das maturidades, pode acarretar em incompatibilidades de mundos.

Anos depois, com nossa amizade já muito sólida, pelo grande acúmulo de maravilhosas experiências divididas (alegrias e dificuldades), mudamos os papéis e foi ele quem me amparou. Muito massa, que naqueles dias “cinzas”, ele ficou muito preocupado comigo, mesmo estando cheio de afazeres e responsabilidades. Senti o cutuco da vida, tal como elepois as projeções divididas eram muitas. Sua longa fala foi no mesmo horizonte da que eu tive com ele anos antes.  Com muita categoria me auxiliou na desconstrução que deveria ser feita. Deixando-me apenas com uma interrogação: por que é tão delicado lidarmos com as nossas próprias projeções de amor?

Jayme C.

sábado, 24 de janeiro de 2015

mulheres, machismos

A TEIMOSIA NAS MULHERES

Eu estava na praia da barra da lagoa com uma amiga colorida. Era uma tarde linda de sol e o mar catarinense nos recebia em um tom verde-transparente. Ela me pediu o fogo para acender um cigarro. Eu lhe alcancei o isqueiro. Depois de três tentativas sem sucesso, quase me ofereci para ajudá-la, ao passo que já havia fumado dois cigarros e assim tinha um handicap favorável. Quase... No exato momento em que ia dizer “eu acendo para você”, lembrei-me que ela, apesar da tenra idade, é uma mulher muito forte subjetivamente e deveras independente. Assim, minha fala foi: “eu ia me oferecer para acender, mas como você é mega independente...”. Ao que ela respondeu: “eu sou é teimosa!”.

As palavras dela mexeram com meu cérebro abalroado pela embriaguez, oriunda das múltiplas cervejinhas que tínhamos tomado, mas também enquanto embriaguez do sol e da beleza natural que circunscrevia aquela vivência. Minha fala subsequente foi no sentido que o reconhecimento da teimosia, era algo que eu já havia notado no jeito de outras pessoas. A partir desse ponto passamos a dialogar sobre as possíveis causas desse fenômeno. Ao que concluímos pela obviedade, ou seja, o machismo constitutivo das nossas práticas culturais acarreta que algumas mulheres acabem sendo teimosas em certas ocasiões. Isto é, devido às múltiplas situações de subjugo masculino em que são acometidas, algumas mulheres acabam desenvolvendo essa disposição. Ela não deixou de observar em nosso papo: “a teimosia acaba sendo um modo de reconhecimento, na medida em que a condição feminina é inúmeras vezes sufocada pelo machismo cotidiano”. Daí a nossa ideia que a teimosia está muitas vezes NAS mulheres, mas que não é DAS mulheres. E que os homens devem fazer uma meia culpa antes de dispararem que suas companheiras são teimosas. Questão a ser recolocada: até que ponto não são esses próprios homens que disparam essa condição?

Jayme C.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ciclos

MATAR O CHEFÃO E PASSAR DE FASE

Eu estava conversando com um grande amigo meu. Ele referia-se a como é difícil se relacionar com uma pessoa que não encerra as suas histórias passadas. Falávamos ao telefone, e quando ele fez essa menção, ascendeu uma lamparina em minha cabeça corroída pelo Jornal Nacional. De fato, é uma bronca grande estar com alguém que não sabe fechar os ciclos. E quantas vezes não somos nós próprios que estamos nessa condição? É sempre diligente olhar para o próprio umbigo...

Acho que essa dificuldade, quiçá, passe por não enxergarmos que já “matamos o chefão” e passamos de fase, como nos referíamos aos joguinhos de nossos video-games dos anos 90. Por falar em “jogos”, acaba sendo uma possibilidade constante para aquele que deixa as histórias em aberto. É terrível quando envolvemos o outro que não está a fim de jogar, em nossas emaranhadas “partidas” que já deveriam ter acabado.
Creio que outra consequência de deixar pequenas histórias sempre com reticências é que dificilmente conseguimos construir uma relação mais sólida e constante. Não que isso seja um problema, pois dá para ser muito feliz solteiro(a), sobretudo em uma terra pródiga como POA. Aliás, é possível utilizar a circunstância do amor aos desígnios da vida (Amor fati) para se representar essa dupla possibilidade de felicidade. É muito bom ser casado, mas também são significativos os prazeres de ser solteiro.

Voltando ao não encerramento dos ciclos já vivenciados, penso que podem revelar problemas na ligação com a própria história daquele que se mantém nessa condição. Não tenho plena certeza, mas desconfio que haja algum vínculo entre o modo com que atribuímos alguns significados a partir da nossa historicidade e o grau de maturidade que temos dos aprendizados históricos registrados. Explico: se o crescimento deriva da capacidade de superar as pequenas e grandes mortes cotidianas que atravessamos, dos prazos de validade que as coisas têm, então não saber pontuar alguns finais podem nos deixar sem o desenvolvimento destas maturidades. Deixar em aberto é não preencher conosco alguns buracos da nossa história. Talvez, não (re)conhecer o tempo lógico das coisas.

Com relação aos ciclos, a relevância das histórias nas uniões afetivas parece ser o tema de uma canção de Jorge Drexler. “Todo se transforma”, ilustra que ao nos relacionarmos, projetamos aquilo que recebemos, ou seja: o que já trazemos como nossa bagagem; pois já sempre estamos em algum ponto de nossa própria história. Nesse sentido, quando nos encontramos com o outro, “cada uno lo da, lo que recibe, y luego recibe lo que da, nada es más simples, no hay otra norma: nada se pierde, todo se transforma.”. Projetamos a nossa história e ao mesmo tempo somos projetados historicamente pelo outro. Tudo se transforma em história quando estamos afetivamente juntos. E desse modo, tudo se transforma em nossa história. Daí, o quão fundamental parece ser a maturidade com que manejamos a nossa vida histórica. E que encerrar as histórias passadas pode ser um importante aprendizado.
Jayme C

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

relações e desejos

A (anti)ética do desejo

Um critério possível para um casal estabelecer em uma relação a dois é o da ética do desejo. Ou seja, que as pessoas sempre façam aquilo que estão querendo quando distantes e não precisem compor os desejos. Evita que o outro seja visto como uma castração, na medida em que sempre apóia que banquemos o que queremos fazer.

Não ser sentido pelo parceiro como um obstáculo para a execução do seu querer é uma importante conquista de algumas relações. Não que seja fácil conseguir esse horizonte. Muita afinidade, diálogo e lealdade são elementos decisivos nessa constituição. Além de muito amor, é claro, pois a entrega de ambos à relação deve ser sentida com reciprocidade. A existência ou não de similitude na dedicação de cada um serve como termômetro da relação.

Entretanto, a ética do desejo pode ter os seus revezes. Nos momentos de instabilidade na relação, pode ser um fator de insegurança para o parceiro. Quando os casais atravessam turbulências, por vezes os sujeitos se abrem para vivências às quais estavam fechados nos tempos de felicidade... Nesses contextos pode-se ter dificuldade ao optar pela ética do desejo. Em outros termos, talvez se devesse perguntar como agir quando o nosso desejo se torna colidente com o desejo do outro. O que fazer entre bancar o que queremos e a necessária consideração com o parceiro em nossas opções? Nesses momentos, a ética do desejo pode implodir de vez com uma relação que está cambaleando.

Um olhar antropológico, sobre essas questões, pode apontar a primazia do individualismo como base da ética do prazer, pois uma relação com esse grau de liberdade só se realiza com duas pessoas com concretude, que se satisfazem consigo mesmas, que sejam plenamente independentes. A essa concepção pós-moderna se contrapõe outra que não é capaz de conceber amor sem a união dos corpos, dos desejos e dos projetos de vida. Tradicionalmente, o amor não é viável sem que as pessoas sejam capazes de se entregar ao outro.         

É difícil construir critérios quando estamos nos relacionando afetivamente com alguém. Cada sujeito é um mundo com as suas particularidades históricas. E, desse modo, cada um dos amantes chega à relação com um modo de ser único em suas práticas. Talvez, o desejo do outro seja um excelente critério quando conhecemos bem o nosso parceiro. Talvez, funcione quando haja sintonia nas maturidades de ambos. Ou não, talvez a ética do desejo se revele frágil nos momentos de crise ou de falta de reciprocidade na transparência. São os paradoxos de um mundo no qual os valores estão constantemente em franca transformação. Como diria Caetano, em seu terno dom de iludir: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Jayme C.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

paradigma da dor

Chão de barro

Quando minha avó morreu abriu-se o chão e eu cai num abismo. Isso porque, mantive uma complexa relação de amor com ela. O que me atrapalhou na demonstração de afeto a outras pessoas enquanto ela foi viva. Em verdade, o afeto partiu dela.

Meu avô, com quem ela casou com 18 anos, sofreu um acidente e morreu repentinamente quando ambos tinham 46 anos. Ficaram apenas as três mulheres – minha avó, minha mãe e minha tia. O meu avô se chamava Jayme de Azevedo Camargo. Eu nasci quatro anos após a sua morte, e minha mãe lhe rendeu a homenagem projetada no nome que me deu. Resultado de tudo, é que fui dois “Jaymes” no imaginário delas.

O sofrimento pela perda de vovó foi até seu último batimento cardíaco. Deu-se ao vivo. Era uma tarde abafada de setembro. Minha avó estava tomada pelo câncer e sabia-se que eram os seus últimos dias. Estava em um quarto do hospital e não na UTI, pois não havia mais volta. Saí da Puc às 11 e 30 e fui direto para lá, onde encontrei minha mãe. Pouco depois, fomos para casa almoçar. Imediatamente, após comer disse para mamãe que ia voltar para o hospital. Discutimos, pois ela queria que eu fizesse outra coisa antes de voltar para junto de minha avó.

Saí porta afora e voltei para o hospital. Estava no quarto, eu, uma sobrinha de minha avó e mais uma pessoa que não me lembro. Eu estava sentado em um banco bem junto ao leito, abraçado nela. Meio que cochilei e me acordei com a fala da sobrinha: “o coração da tia está parando de bater”. Comecei a chorar e abraçado em sua barriga fui sentindo o coração de “vovolinha” lentamente parar. Como disse no começo, fiquei sem chão.

Anos depois, em uma das muitas sessões de terapia com o meu querido ex-psicólogo Dr. Fausto Lemos, eu me percebi relatando que não apenas tinha caído em um abismo, mas que no fim da queda eu me esborrachei em um chão de barro, aquele barro bem vermelho. Senti a condição de nenhum outro horizonte que não apenas o chão duro de barro vermelho. Dá para se imaginar o que significou esse sofrimento na minha pele... Foram meses de muita dor. De lágrimas incontidas em dias de torpor existencial. O maior sofrimento da vida.

Esse momento vivido há 14 anos tornou-se o meu paradigma para o que é sofrer e sentir dor. Em palavras terapêuticas, o meu mito de (re)fundação existencial. Acho que talvez por isso o meu imaginário referiu-se ao chão de barro, metáfora perfeita para a possibilidade de re-modelagem. A mistura da dor com a sensação de estar perdido é algo deveras difícil no horizonte do sentido. Enfim, ao se tornar o meu referencial de sofrimento, a perda da minha avó só vem à tona nos momentos mais difíceis. E sempre reverbera um ensinamento em meu coração: só a morte encerra, em definitivo, as nossas possibilidades. No mais, como diria um amigo poeta, vida é fortuna, fado e circunstância.         

Jayme C.