quarta-feira, 20 de julho de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
nunca tive lugar
Nunca tive lugar.
Sempre me senti um fora-de-lugar.
Talvez por trazer na essência a história de minha existência.
Todos temos marcas.
Nossas tatuagens são nossa primeira pele embora não a enxergamos.
Cada vez enxergamos menos uns aos outros.
A janela da alma está cega.
Cegonha que não chega – ninguém nasce mais.
Somos consumidores da vida.
Consumo e dores.
De consumidores da vida a vida de consumidores.
Dores.
Não há cura em lojas de conveniência.
O racionalismo sacrifica em massa.
Pessoas que não comem nada.
Massa que sobra e vai pro lixo em guetos e restaurantes.
Luxo que sobra e vai todo à mesa de madames.
Damas da ilusão.
Lixo e luxo se confundem para sua desilusão.
É o preço da vida de plástico
de toda lógica da dominação.
Jayme Camargo
quinta-feira, 14 de julho de 2011
facadas na “Redenção”
Se não formos capazes de viver
inteiramente como pessoas,
ao menos, façamos tudo para não
viver inteiramente como animais.
JOSÉ SARAMAGO
Polícia para quem precisa de polícia (facadas na “Redenção”).
Eu estava no parque da Redenção tomando um chimarrão em um fim de tarde da primeira semana de julho. Presenciei a abordagem de dois agentes da Brigada militar a dois jovens que supostamente fumavam maconha. Os jovens eram aparentemente socialmente viáveis. Não era necessário mais que um mediano bom senso para perceber que eles não eram “bandidos”. Os brigadianos estavam de bicicleta. Abordaram os jovens cada um com uma das mãos nas respectivas armas. Poucos dias depois, mais precisamente no dia 4 de julho, um jovem de 16 anos foi morto a facadas no mesmo parque da Redenção. Há poucos metros do local onde eu havia presenciado a batida nos jovens. Segundo a agência Folha de SP, o crime ocorreu por volta das 19h30min. Na última segunda-feira (12 de julho) fui fazer o fitness na Redenção. Entrei no parque pelas proximidades do viaduto da Rua João pessoa. Os brigadianos da ocorrência descrita estavam fazendo a mesma abordagem em outros três jovens. Com todo o respeito que um agente de segurança pública merece, resolvi observar: “semana passada mataram um menino a facadas aqui no parque, vocês não deveriam estar protegendo a Redenção desse tipo de violência?!”. E um dos agentes redargüiu: “eu não tava aqui, eu tava em casa”. Fiz minha última observação –“eu também estava em casa, pois tenho medo de vir para o parque, na medida em que a Brigada fica pré-ocupada com jovens que supostamente estão fumando maconha e permite que outros jovens sejam mortos a facadas.”. No direito temos algo que se chama “bem jurídico”. É o que cada lei penal busca proteger. Alguém que mata, por exemplo, desrespeita o bem jurídico vida. Alguém que rouba o bem jurídico patrimônio. Isto é, a política criminal de um estado (também) aparece para a população na relevância que o estado e seus agentes dão para cada bem jurídico. Não quero concluir que o posto da Brigada militar no parque da Redenção serve principalmente para fazer “termos circunstanciados” para usuários de maconha. Enquanto isso pessoas ficam mercê dos verdadeiros bandidos que destroem a vida com “facadas na Redenção”. É uma questão de prioridade. Toda escolha é uma renuncia. Assim, espera-se que os agentes estatais não renunciem à vida das pessoas em nome do vício. A atuação viciada implica o custo de vidas.
Jayme Camargoterça-feira, 5 de julho de 2011
o cheiro de Luana Piovani
ao Lucio pela bonita amizade
O cheiro de Luana Piovani.
Eu havia decidido comprar um perfume que gostasse. E que se tornasse a minha marca. E que marcasse um tempo de ricas vivências. Era uma tomada de posição. Escolhi. Calvin Klein. Um perfume verdadeiro. Engraçado que foi pouco tempo depois de ter saído da casa de minha mãe. Que de fato confirmou as ricas vivências. Que duram e se dão até hoje. Uma delas se deu com o meu queridíssimo amigo Lucio Chachamovitch (lucinho ou lucildo). Eu, ele e o Antonio Carlos Falcão fomos a uma peça que era um monologo com a atriz Luana Piovani. O querido Falcão é um excepcional músico e artista aqui da província. Pois, o Falcão é muito amigo da Piovani. Assim, tínhamos tickets privilegiados para ver a bela encena-ação. Terminado o espetáculo fomos todos ao camarim. Cumprimentei Luana lembrando quantas vezes havia a homenageado em meus secretos prazeres. Brindamos sua competente performance. Meu imaginário estava pulsando libido ao lado daquela mulher exuberantemente bela. Ela falava com aquele “carioquêix” característico das belezas globais. Era um domingo e ainda havia a festa “Zeligdum” no Zelig bar. Assim fizemos a migração do teatro para a Cidade Baixa. Chegando lá, a minha amiga-presidenta Juliana Chagas (vulga juju) havia se juntado a nós. Foi aí que Luana Piovani resolveu se pronunciar. Como toda mulher que sabe que é notada, indagou com charme: “quero saber quem é que está usando o maravilhoso perfume que estou sentindo? Quem é esse cheiroso?”. E imediatamente passou a cheirar cada um dos que estávamos juntos. Pensei que fosse a cheirosissima Juju a sua eleita. E Piovani cheirou juju antes de mim e não era. Chegando até minha pessoa me cumprimentou com beijinhos pela segunda vez na noite e disse: “você é muito cheiroso; meus parabéns!”. Na hora tive a confirmação de um movimento feito quase um ano antes. A mudança no perfume havia sido reconhecida por uma mulher que eu gostaria que meu cheiro cativasse. E tal foi confirmado em diversas outras circunstâncias. Afinal de contas, alguns cheiros se transformam em nossas vivências...
Jayme Camargodomingo, 3 de julho de 2011
estilo cachorro
a todas as mulheres integras
Não é machismo (estilo cachorro).
Mano brown, como em não raras vezes, acerta em cheio na música “estilo cachorro”. Seu tema: o comportamento que as mulheres em geral fixaram como o padrão que lhes atrai. Há quem diga – há trai. Por exemplo, Djavan canta: dizem que o amor atrai. Sim, deturpamos o sentido de Djavan. Talvez tentando dar mais su(b)stância ao seu idioma musical. Não desconsideramos o seu talento, mas somos mais amigos de Brown. E ele defende a idéia que as mulheres em geral consagraram o estilo cachorro como o padrão masculino. Elas valorizam, portanto, a sensação de poder que os cachorros as conferem no cotidiano. Logicamente não estamos falando de todas as mulheres. Nosso alvo, tal como os Racionais, são o grande número de cachorras soltas por aí no dia-a-dia. Elas determinaram a valorização dos cafajestes (doravante “cafas”). A consagração dos canalhas. Esses dias estava a conversar com três belíssimas e interessantes mulheres da faixa dos trinta. Elas falavam justamente do fato das meninas da faixa dos vinte atraírem e gostarem dos cafas. Diziam as três mosqueteiras que com o chegar aos trinta a mulher passa a gostar dos queridos. Talvez seja. O problema é que como os vinte vem antes dos trinta, a referência resta prejudicada. É corriqueiro escutarmos das próprias cachorras que elas adoram os canalhas. Brown pressupõe no cristalino a dependência freudiana que temos, isto é, temos um olhar (no) sexual. E como em geral são as mulheres que decidem com quem vão transar, elas definem o critério. Diz a canção: “pra conseguir o que sempre quer, utiliza a mesma arma que você, mulher”. O estilo cachorro é a arma das cachorras. Mas, onde late a sua alma?
Jayme Camargo
segunda-feira, 27 de junho de 2011
ficção da realidade ou realidade da ficção?
Eles eram grandes amigos da vida. Pois ela havia os colocado lado a lado. Estudaram na mesma academia, porém lá não compartilharam nada. Ou, melhor, lá só compartilharam o nada. O encontro com Rossalee, entretanto, havia se dado no turno da lua. Eram idos de 2007. Estavam na casa de um deles. Tinham feito versos beatniks e mexido “intensa-a-mente”. Uma noite a lá William Burroughs, ou seja, com os seus devidos dionisíacos ingeridos. Cansados da masturbação poético-intelectual, caíram na rede. Como dois participantes da era virtual, tiveram na Internet a promessa da masturbação oral. A inodora rede acabou pescando Rossalee. Primeiro passo: entraram no MSN. Segundo movimento: identificaram a vítima; ou, em linguagem de máquina, o vírus. Que era a carência de Rossalee. Terceiro passo: a utilização do argumento do sonho de Rossalee. O argumento do sonho se deu em várias partes. Primeiro eles chamaram Rossalee dizendo que haviam sonhado com ela. Rossalee, empolgada como toda mulher ficaria, ao ver à janela emeesseênica teve a sua barra de tarefas laranja. A janela piscava. O barulinho do MSN fazia com que seus ouvidos transformassem aquele chato barulho em tesão e jazz. Ella perguntou: “é mesmo? O que vocês sonharam?”. Sonhamos que estávamos em uma praia deserta, que chovia e nos escondemos em um quiosque. Nele estava teu antigo diário. Ele descrevia o teu primeiro beijo... Cada parte, é importante sabermos, era pausadamente enviada, fazendo com que cada pergunta de Rossalee a tornasse mais envolvida com a história na resposta. Quando da pausa da última parte do sonho, Rossalee não se agüentou: “o que vocês estão fazendo? Onde vocês estão?”. O medo de perdê-los ins-pirou à vontade de ir vê-los.Os rapazes estavam literalmente no Centro, nas imediações da Alberto Bins. Rossalee, não longe, estava na Independência, isto é, bem próxima ao Centro e ao mesmo tempo independente. Pediu que fossem buscá-la. Os rapazes, cavalheiramente, não hesitaram o chamado de Rossalee. Conduziram-na ao centro. Tinham segundas intenções. Ela era virgem e sonhava ser feita mulher. Não havia transado ainda, pois duvidava da capacidade de um homem para tal. Sonhava com dois. A metafísica da vida os deu. Os rapazes retribuíram as expectativas do sonho de Rossalee. Corresponderam a toda intimidade de sua terra prometida. Como messias do sexo a transformaram em uma das poucas mulheres naquela noite com as suas expectativas plenamente confirmadas. Rossalee nunca mais foi à mesma...
Vado Vergara e Jayme Camargo
quinta-feira, 23 de junho de 2011
mu-dança...
Mudar: mu-dança.
Re-encontrei uma colega que não via há mais de 11 anos. Havíamos sido colegas no segundo grau. Ela cursou biologia e trabalha com acessoria ambiental. Nos conhecemos quando eu ainda era meio selvagem. Selvagem no sentido de demasiadamente chato. Eu tinha 16 anos e era muito guri. O tempo passou. Atravessaram a minha vida diversos acontecimentos. Meu “mito-fundante” morreu. Estudei em lugares bem diferentes como o direito da PUC e a filosofia da UFRGS. Amores passaram. E, principalmente, amizades sólidas se constituíram. A carência oriunda do vazio de amigos hoje é quase inexistente. Aliás, isso faz toda a diferença. Ter amigos que te procuram quando os seus corações estão cambaleando. Eis, para mim, uma grande prova e marca de uma amizade consistente. Não posso falar como a colega era 11 anos atrás, pois não a conhecia bem. Mas, devo frisar que naquele momento ela não foi nada pré-conceituosa. Não me olhou com os olhos do passado. Ela havia convivido comigo na época em que eu beirava a barbárie comportamental. Tinha tudo para colocar esse filtro em seu olhar. Fiquei surpreso pela sua sensibilidade. Ela creditou-me a possibilidade de ter mudado. Mudar é a palavra-chave. Abre as portas para que se qualifique o cotidiano. As pessoas no cotidiano cada vez mais mudam menos. As pessoas conservam. Normalmente adotam um ponto fixo e são conservadoras. Dizem não a mudança. E assim falta a dança, falta um movimento na sua vida. Em geral as pessoas estacionam em suas selvagerias. Sorrindo a colega me disse: “estou impressionada, como tu estás diferente”. Eu compreendi: não sou mais o selvagem de outrora! Ela nem sabe, mas sacou a minha essência ao dizer “diferente”. Sensibilidade com a diferença. Eis, talvez, a essência de minha mu-dança...
Jayme Camargo, quinta-feira, 23 de junho de 2011 às 18:47.terça-feira, 21 de junho de 2011
os homens não escutam as mulheres...
Os homens não escutam as mulheres (crônica de uma morte anunciada).
Os homens, em geral, não escutam as mulheres. Não dão bola para o que elas dizem durante um relacionamento. Todas aquelas reclamações que elas fazem com afeto. Elas falam, falam, falam, até cansarem. Daí primeiro elas param de falar. Depois param de sentir. E finalmente param de querer conviver com quem não as escuta. Para todas que não são levianas com as palavras, isto é, que prezam e são verdadeiras com aquilo que dizem, é broxante não ser escutada por aqueles que amam.
As mulheres falam a partir do seu local-de-fala, ou seja, falam enquanto mulheres. Os homens nem se dão conta que ainda não estão preparados para escutá-las como mulheres. Tentam escutá-las a partir do seu ponto de vista. E assim apenas as ouvem, mas nada é processado, ou seja, elas não são escutadas. São exclusivamente ouvidas a partir de uma visão masculina. Isso fulmina com a relação na prática. Elas se sentem desmerecidas em seu amor, pois o que queriam transmitir é exatamente a afetiva manifestação prática. Estar "perdendo" tempo com aqueles que amam é uma prova de amor para as que tampouco são levianas com o seu tempo.
Elas costumam falar aquilo que lhes incomoda, mas os homens egóica e vaidosamente não registram. Acreditam que o amor que lhes é dirigido será eterno e cheio de juventude. Os homens se posicionam como peter-pans, crentes que o feitiço do amor sobreviverá a adolescência da sua falta de ouvidos. Dificilmente ele sobrevive. Elas não agüentam e vão embora. Choram primeiro e os homens quando cai a ficha de que deveriam tê-las escutado. Pouco antes de partirem, quando das últimas discussões, ainda estão sujeitas a ouvir dos homens: "mas, você quer terminar assim, do nada... você nunca disse nada, eu não sabia que algo estava errado...". Elas quase sempre falam. São até debochadas pelo universo masculino por falarem demais.
Aliás, devemos fazer esse meia-culpa: os homens passam todo o durante a relação reclamando das intromissões delas, de suas falas exageradas. Pois, quando estão sendo abandonados, reclamam que elas não disseram nada. E o que é mais trágico, os homens inúmeras vezes fazem a pior fala que pode se dar para uma mulher que está nos deixando - "você destruiu a minha vida". É a confissão de que não a ouvimos e nem nos demos conta de tal esquecimento. Além de revelar a dependência por carência que toda a zona de conforto gera. Quem já perdeu a preciosa paixão de uma mulher legal e interessante, por não tê-la escutado, sabe a dor que dá depois que cai a ficha do erro. As mulheres falam e dessa forma dão os caminhos para que as façamos felizes. Evitemos o evitável e assim deixemos o sofrimento por conta do inevitável. Talvez assim emancipemos os nossos corações. Talvez não. Às vezes é uma questão de sorte encontrar alguém que escute o nosso amor.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
qual o tamanho dessa mágoa?
A garota veio me dizer na noite: “vim te dar oi, pois acho ridículo não nos cumprimentarmos. Mas, fique sabendo que eu ainda não te aceitei no facebook, pois ainda estou magoada”. Bem assim... No meio da pista de dança. Eu de pronto respondi: “nossa, você ainda está magoada, a minha mágoa já passou...”. O Lucinho, dias atrás, comentou: “sim, né, vocês trocaram farpas desmedidas”. Isto é, houve reciprocidade nas ofensas. Enfim, dias após acabei refletindo sobre o acontecido. E me conduzi a uma questão – qual o tamanho da mágoa dela para ela não ter aceitado o meu facebook? O fato era: ela havia ido me cumprimentar. O que era maior (mais importante), seus cumprimentos “ao vivo” ou a recusa virtual? Qual era o tamanho da mágoa? O mais engraçado é que quando fiz meu facebook optei por convidar todos os meus contatos do hotmail. Não escolhi pontualmente, ou seja, a tal garota veio no vácuo de todos os contatos. Guardar mágoas não me parece ser um bom horizonte. Cordialmente repeti desculpas já dadas outrora. Ela aceitou, porém disse que agora ainda demoraria para digerir as atuais desculpas. E que assim demoraria mais um pouco para aceitar meu convite “facebookeano”. O facebook é importante para ela. Foi uma óbvia conclusão. Entretanto, restou-me uma dúvida – qual o tamanho dessa mágoa?
Jayme Camargo
segunda-feira, 6 de junho de 2011
carta dos direitos humanos
Mudar é difícil, mas é possível.
Paulo Freire
Carta aberta de uma mãe em defesa de um filho: a “declaração materna(l) dos direitos humanos”
Caro filho, quem te escreve é tua mãe. Aquela que te colocou no mundo. Que tentou te cuidar enquanto pôde. E que não mais podendo, cuidou que a ética do cuidado fosse re-memorada entre os homens. A ética que as mães têm por seus filhos – do cuidado pelo amor. Tu, meu filho, deverias ser reconhecido entre os homens. Quando finalmente os direitos serão “humanos, demasiado humanos”?! É minha pergunta para tais “homens”. Que te levaram de mim, porém agora te abandonaram no mundo. Eu, na qualidade de tua mãe, jamais fecharia a porta para a tua entrada. Jamais te deixaria na rua, jamais te deixaria jogado. Olha os homens des-humanos, ciborgs de coração gelado, que te rejeitam à sarjeta... Acorda meu filho! Olha para o que fazem contigo no cotidiano... Olha para como as pessoas esquecem o teu ser. Esquecem a tua existência. Olha o que fazem com aquilo que lhes parece diferente. O olhar que as pessoas executam quando olham para a diferença. Os homens te executam ao executar a diferença. Olha para aqueles que se amam e que não tem liberdade para poder amar. Tão somente por causa de alguma diferença na composição dos pares. És esquecido e assim pessoas que se amam são discriminadas por se amar. És duplamente executado quando pessoas “selecionadas” pelo sistema das grades, são destruídas subjetivamente pela seletividade. Sejam grades de condomínio, ou grades de “penitencia-diária”. Olha e não te engana, meu filho, os homens continuam brigando por motivos de cor. Continuam no dualismo pré-conceituoso entre o escuro e o claro. E assim eterna-mente perdem a beleza dos arco-íris. Os homens, tolos reféns dos objetos, lutam por seus egos. E assim também és executado... Olha o que os homens fazem contigo, em nome de algo que eles próprios definem como o “normal”. Passei a vida querendo encontrar o tal “normal” e acabei muitas vezes perdendo minha própria história. Eu reconheço – meu amado filho – que também erramos. Que muitas vezes em teu nome cometemos alguns atropelos. Sabes como são as mães, não medem esforços para verem seus filhos se desenvolvendo... Por isso mais essa súplica. Mais esse texto. Testa a tua retirada como a abertura para um re-começo. Como a abertura de um reconhecimento. Ou, alternativamente, voltas para casa. Sai desse mundo se ele não demonstrar que te mereça. No seio de tua mãe aos teus filhos não faltará leite. À tua vida não faltará diferença. Ao teu histórico espírito não faltará memória na guarida. Guarda a tua própria vida - é o que te peço. Não imaginas o que seria para a tua velha mãe Vida, ter que presenciar ao teu enterro. Na des-humana terra em que ainda reina o preconceito. É mais difícil quebrá-lo do que quebrar um átomo, disse Einstein no ensejo. Talvez, meu filho, esta seja a "partida". O começo pela quebra do preconceito. Escreverei para que os homens o destruam. Pois será a tua vida que estará em jogo. Não quero te perder mais em guerras, em viadutos, em guetos, ou, favelas. Não quero mais te perder por questões de gênero. Tua gênese é tua própria natureza; e teu sonho – deuses. Sonho contigo saudável no cotidiano. E assim me faltam palavras. Restam-me soluços, lágrimas e desespero. Como tua mãe, sinto as dores do sofrimento de todos aqueles que não têm acesso. Ace(n)ssibilidade como um todo. É o “outro” como respeito. Um casamento com a alteridade. Ela é o amor que te desejo. Ela te dará a saúde na doença. O amparo na justiça. Um lar para tua vida. A tua vida é a minha maior pré-ocupação. Deves saber que Não há problema maior para uma mãe do que a vida de seu filho. És um pedaço de mim. Assim, és a vida desta velha senhora Vida. Tu, “Direitos Humanos”, meu amado filho, és a própria vida desta velha história chamada Vida...
Porto Alegre, sexta-feira 3 de junho de 2011.
Jayme Camargo da Silva