sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

ano novo, novo ano

REVEILLON DO CORAÇÃO
Passei diversas horas desse feriado de réveillon com o querido amigo Mau Saldanha. O Mau é o cara. O cotidiano com ele é na onda vida como um filme... Estávamos distantes menos de 5 minutos um do outro na caótica Capão. Nos pechamos logo no segundo dia na praia e não tivemos dúvida com relação ao nosso primeiro movimento: fomos aos camelôs e compramos uma bola para jogar o saudoso “3 dentro e 3 fora” – na areia fofa da praia. “Capom” sobrevive na penúria da infraestrutura. Esgoto no meio da areia da praia dividindo veranistas entre “além do esgoto e pós-esgoto”; ruas em seus cruzamentos todas inundadas com a chuva; e cheiro de esgoto por vezes no ar. O que será que a “crasse” dirigente caponense faz durante o inverno? Toma os seus Concha y Toro comprados no Nacional semi-vazio dos dias de frio, e assim esquece-se de cuidar das ruas, calçadas, saneamento básico, para o verão que tanta gente desde sempre receberá? Enfim, eu, Mau, Gabriel, Ratão e Angeloni abstraímos às dificuldades do Capão. Acabamos também encontrando outro ilustre amigo, Felipe Pimentel, com quem passamos horas leves, questionadoras, de muita “fala plena” entre amigos, mas também muito deboche e poesia da existência. Fizemos um sambinha com um cavaquinhista de uns 70 anos (“velho Abílio”), em Atlântida, na casa do Dr. hospitalidade – Negão Edu, local em que todos os citados reunidos tomamos o primeiro trago dois mil e catorzeano. Havia ainda a companhia do interessante e queridíssimo casal, Lela e Lagartixa (Juliano), com quem batemos papos muito legais em meio ao agradável “Lola Verano”. Lagartixa e eu dividimos um pouco do gremismo que tanto nos identifica, além de outros deboches antropológicos. E no meu caso antropofágico (“duelo de hip-hop”, nas palavras do Mau), em um dado momento “Sérgio Malandro” provocado. Muitos papos legais e com muito coração permeando os assuntos. Nesse dia o Pimenta veio falar sobre a sua ideia que é o coração quem garante os grandes momentos do ano. Não as realizações objetivas/concretas, isto é, não as metas cumpridas. Entretanto, por exemplo, os cotidianos simples compartilhados com quem gostamos. Em vários momentos dos dias que passamos juntos comemoramos o encontro. Reveillon com amigos do coração é o fundamental. O Mau é mestre nisso. Muito coração nos laços afetivos. Eu não queria o Capom, mas o Capom me quis. Saiu bem melhor do que o não esperado. Como me disse alguém em 2013, se não idealizamos, então não criamos expectativas. Um bom horizonte para as vivências do novo ano.
Jayme C.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

debochinhos cotidianos

ESTRANHOS DEBOCHADOS
Durante a adolescência (nos anos 90) ser estranho era um fardo. Sofria-se bullying sem repressão. Era-se alvo dos mais variados deboches. Nesse mundo o mar não era de rosas. O mar era turvo... Estranho no sentido de feios, pouco populares com as garotas e alguns ainda chatos. A feiura é algo irresolúvel, mas passível de ser melhorada com o efeito do tempo e a consequente diminuição da falta de ‘interessância’. Da mesma forma é possível aprender a ser menos chato. Nesse contexto do progresso no tempo, a popularidade com as garotas deixa de ser absolutamente uma nulidade.
O estranho tem que se puxar por outros lados. Tem que ser atraente de alguma forma, na medida em que sua estética já não o ajuda. Assim, ter um bom humor refinado é uma via possível. Trilhável. Ser engraçado é um qualificador decisivo. Os infelizes deboches da juventude são progressivamente substituídos por deboches com o fundamento das coisas, com a categoria para não ser cansativo e a educação necessária para não ser desagradável. O fundamento é valioso no deboche, pois o deboche só pelo deboche, ou seja, sem fundamento, acaba sendo vazio e pouco valor agrega além de risos sem significado. Isto é, se só falar sobre o fundamento das coisas é chato, de outro lado o deboche no vácuo revela a falta de categoria do debochado. A educação é fundamental para que não falte ‘desconfiômetro’ na galhofa, ou seja, para sacar o contexto e não resultar em inconvenientes fracassados. Na hora de dançar, então, vale ouro ser um estranho engraçado. Normalmente as gurias dão risada. E assim o acesso já se vê mais facilitado... Felicitado! Felicidade na vida acaba passando pela capacidade de rir e saber provocar belas gargalhadas. Importante ressaltar que para conseguir o deboche qualificado deve-se não se levar tão a sério. Só rindo de si mesmo aprende-se a rir com categoria e elegância.
Jayme C.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Idealizar ('amor fati')

Acho que o primeiro passo para não idealizar o outro é não se auto idealizar. Ter uma noção mais clara da sua origem e da sua história ajuda para não incorrer no autoengano. Nesse ponto a terapia pode ser um importante aliado. Assim sendo, é preciso nos enxergar como de fato somos para enxergarmos o outro como ele de fato é. Talvez seja uma relação mais justa, porque mais real, entre pessoas concretas e não imaginadas, imaginárias... Cada sujeito tem um tempo mui particular nesse movimento de consciência de si. E assim cada sujeito tem uma determinada condição de não projeção sobre o outro. Por vezes algumas pessoas demoram muito tempo para melhor se compreenderem. Outras pessoas levam a vida toda. E essas normalmente acabam tendo dificuldades em ter relações concretas. Aquele que projeta o que não é, para quem não existe, fatalmente atrasa a felicidade. Nesse contexto o tempo se coloca como uma questão fundamental. Ele surge como um requisito para o real conhecimento (de si e do outro). Isto é, se o autoconhecimento demanda tempo, o que se pode esperar do processo de conhecimento do outro? A vida nos cobra a tranquilidade de saber que relações sólidas demandam tempo, porque conhecer o outro demanda certo tempo. A pressa implica afobação e no conhecimento isso resulta em atropelo. A serenidade no processo de conhecimento de uma pessoa garante uma maior maturidade no laço, pois as fases do processo foram vividas sem a pressão da aceleração do tempo. Normalmente são as nossas carências que nos fazem projetar no outro o que não é originariamente seu. O que acarreta que a projeção não seja apenas ruim para aquele que projeta, mas também para o outro que é injustiçado no olhar dirigido a si. Só há combinação de consistência e leveza se não há projeção. Creio que ter uma atuante autocrítica também é um aliado deveras significativo. Um último ponto merece ser destacado. Não idealizar e querer não ser idealizado pode ser visto como uma madura forma de amor. Isto é, desde sempre desejamos que o outro goste daquele que concretamente somos. Então, ao filtrar a idealização fugimos da caverna platônica em suas formas imaginárias e nos encontramos com Nietzsche – em sua defesa do “Amor Fati” (do latim amor, nominativo singular de amor,óris: 'amor a algo' e fati genitivo singular de fatum,i, 'destino'). O amor ao destino é a vivência desapegada da idealização. Daí "amor fati" ser amar o inevitável, amar o destino, amar o justo e o injusto, o próprio amor e o desamor. Ou seja, "ser, antes de tudo, um forte" (Nietzsche), sem reclamar da vida, sendo superior até mesmo ao próprio sofrimento.
Jayme Camargo, 19 de dezembro de 2013, 01:42.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

amor antropológico

O RE-FLORESCIMENTO DO AMOR EM PORTO ALEGRE
No último 24 de Novembro (domingo no parque), no Araújo Viana, duas falas me chamaram a atenção. Tonho Crocco e Edu K falaram, e defenderam o amor. Minha surpresa não derivou dos sujeitos falantes, porém da importante qualificação no fundamento de suas falas. Por ser mais próximo de Tonho (ou menos distante), vou destacar mais a fala do “Defalla” do que a do groove pensante da Ultramen (melhor banda gaúcha dos últimos 20 anos). Edu K disparou com sabedoria e propriedade: “que maravilha, voltei à Porto Alegre e vejo que estão acontecendo diversos movimentos, as pessoas estão agrupadas e fazendo coisas interessantes – isso gera amor”! Tanto Edu K quanto Crocco estiveram na Oswaldo Aranha dos anos 80/começo dos 90. Isto é, participaram de um dos últimos “guetos antropológicos” de Porto Alegre – que legaram significados culturais para a cidade. Infelizmente os meus 30 anos não me permitiram vivenciar essa época. Porém, uma das mais sábias opções que fiz foi escutar diversos amigos que estavam lá e participaram daquele mo(vi)mento. As pessoas estavam na rua ocupando o espaço público e fervilhando idéias, ideais e outras trocas simbólicas que só às experiências-de-rua (mundo da vida) possibilitam. Suponho que Edu K ao falar sobre a província de hoje, de certa forma, teve um pouco na história o seu referencial. Não acho que a comparação seja o caminho mais fiel aos dois momentos. Entretanto, há uma pulsão de vida novamente fervilhando na cidade. Lembro uma frase de minha mãe, aos seus 60 anos de trajetória e antropóloga de formação: “há anos eu não via nada começar em Porto Alegre!” – referindo-se às manifestações ocorridas em junho na província e no Brasil. São diversos os movimentos que novamente estão agrupando pessoas e essa (re)união revela a socialidade viva no imaginário e nas práticas. Temos os importantes movimentos de ocupação dos espaços da polis como o “Largo Vivo”, “Ocupe Porto Alegre”, “Redenção iluminada”, etc. Coletivos de diversas áreas e temáticas também agrupam e promovem debates (tal como o “Sororidade viva”). Temos fortes nichos feministas que conferem solidez à causa em questão. Enfim, cito em nome da ilustração apenas alguns, pois seria deveras longa a lista que contemplasse todas as vertentes. O resultado disso tudo: o reflorescimento do amor em Porto Alegre. Amor não só entre as pessoas e em suas mais diversas formas e níveis, na medida em que passam a estarem mais próximas; mas também o amor em geral, amor pela cidade, pelas idéias defendidas, pela vida cotidiana como um todo. Quiçá a primavera em Porto Alegre seja a época das flores não só enquanto beleza natural, mas também enquanto antropologia da vida em sua forma mais universal: o amor!
Jayme C.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

sobre o feminismo

Sou um homem feministo (a condição masculina e o feminismo) 

Eu nunca bati em nenhuma mulher, mas já tomei uns safanões. Menos mal que não fiquei traumatizado. Brigas em fim de relacionamento. Acho que a minha (in)capacidade em deixar irritadas as namoradas que estão virando ex-namoradas, aliadas a sua fúria ferina, resultaram em alguns arranhões em mim. Tive uma ex-namorada que era mega forte e braba também. Mulher incrível e maravilhosa, diga-se de passagem. Ela é leonina e certamente eu levei umas unhadas suas. Em uma de nossas brigas terminais, eu estava meio gambá do uísque e quebrei o vidro de uma porta com um soco para descarregar a minha raiva. O descontrole é sempre uma merda, mas somos passíveis enquanto humanos passionais. Foi ridículo de qualquer modo, entretanto, muito melhor descontar em um ser inanimado do que causar dor ao outro sensível. Outra ex-namorada tinha um ímpeto agressivo e pouco jogo-de-cintura em brigas conjugais. Certa vez pegou um pedaço de madeira e eu tive que sair porta a fora de casa para não sofrer piores mazelas. E se eu não tivesse saído? Acho que aqui reside um ponto.

Algumas mulheres por vezes se descontrolam. E se estão perto de sujeitos que vão apenas se defender e não contra ataca-las, então elas podem se beneficiar desse artifício. É importante não esquecer o contexto: mulheres furiosas, em brigas terminais, agindo com agressividade frente a parceiros que apenas se defendem. Esse é um caso raríssimo onde a condição de mulheres é protegida. Pois se eu e minha ex trocássemos de papeis no episódio do pedaço de madeira, já seria uma violência simbólica de ameaça (violência moral) que mui provavelmente a “Maria da Penha” categorizasse. Puxa vida, acho que deve ser isso o significado de viver na sociedade do risco... Esse risco as mulheres sofrem desde sempre dado à estrutura de mundo machista. Os artifícios e prerrogativas normalmente estão todos do lado dos homens. Nessa ínfima condição muito específica que contextualizei, acredito residir o mais próximo (ou o menos distante) que os homens conseguem chegar das injustiças que as mulheres passam no cotidiano. Aliás, essa é uma acertada tese de várias feministas, isto é, que os homens nunca vão conseguir saber como se sente uma mulher em um mundo machista full time como o nosso. Daí defenderem a não presença masculina em alguns dos seus espaços de reconhecimento. 

É nesse emaranhado de novelos que me aproprio do termo cunhado pelo Juremir Machado da Silva – e lhe confiro um sentido empírico: sou um homem “feministo”! Talvez reflita a condição de alguns homens, a saber, sensíveis à defesa dos direitos feministas, porém cientes de sua condição existencial masculina. Sobretudo em sendo fruto mais de grandes mulheres do que de grandes homens, como no meu caso. Fecho fácil com Pepeu: “ser um homem feminino não fere o meu lado masculino, se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”.

Jayme Camarg

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Vitor Ramil e Edu K

Vitor Ramil, Edu K e os gaúchos (con)gelados no medo de se expor.

Domingo fui ao show no Araujo Viana. O domingo no parque estava maravilhoso. Puro groove da melhor qualidade. A reunião de Tonho Crocco, Funkalister, Luis Wagner, Paulo Dionísio, Andréia Cavalheiro, Edu K só poderia garantir o mel do melhor. Ao entrarmos no Araújo sugeri que fossemos para o lado esquerdo do palco onde alguns poucos estavam assistindo o show em pé, dançando. Ora, com essas joias a Black music invadiu meu corpo e não me fez querer ficar sentado. Talvez porque eu seja crioulo e quando olhava de relance para a plateia via um Araújo caucasiano e sentado. Talvez não. Conheço muitos brancos que dançam tais como os que estavam lá no cantinho curtindo o show sem medo de ser feliz. Creio que esse seja o ponto. O medo de ser feliz. A galera na província anda deveras preocupada com o que os outros pensam e vão falar sobre si. E como aqui é uma cidade grande pequena, ou seja, na qual todo mundo se conhece e se intromete (tal como eu ao escrever esse texto), fica todo mundo comportado mesmo que o desejo seja o extravaso. Enfim, quando Edu K subiu ao palco sua primeira fala foi: “aí, galera, vamo se levanta, vamo se divertir é hora da chalaça!”. Não adianta, normalmente a maloqueiragem assegura uma vibrante presença de palco. Não à toa Edu K desceu do palco e enlouquecido subiu nas estruturas do Araújo no primeiro momento catártico do show. A partir daí a coisa vibrou com mais intensidade. Ontem fui ao show do Vitor Ramil no salão de atos da reitoria da UFRGS. Bem, se no Araújo que a coisa tinha tudo para ser naturalmente mais maloqueira e não foi, imagine na reitoria para um show mais intelectual e com a “crasse” média universitária da federal?! O show não começou gelado, começou congelante. O maravilhoso Vitor Ramil com a sua categoria musical e a queridês de sempre, ao tocar “Estrela, estrela” não deixou de observar. Ninguém cantarolou junto uma música que, normalmente, ele nem precisa cantar, pois o público leva a melodia com a sua cantoria. Na mesma hora me lembrei das inúmeras vezes que havia o visto tocar no próprio salão de atos essa canção, e o quanto havia sido de plenitude a sinergia entre músico e plateia. No mesmo horizonte de Edu K, Vitor pediu que o público semi-moribundo viesse a se manifestar. E a partir daí o show fluiu com mais sangue, mais vida, pois tal é a condição da música, isto é, nos retirar do marasmo existencial que por vezes o nosso cotidiano muito racional nos afunda. Porto Alegre parece precisar menos lulu e mais Lulu, o “Santos”, ao passo que “vamos nos permitir, pois não há tempo que volte amor, vamos viver tudo que há pra viver...”!              

Jayme C.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

música e cotidiano



É necessário ter o caos dentro de si para gerar uma estrela (Nietzsche)

Tudo se transforma em melodia com Jorge Drexler: música e cotidiano

As canções de Jorge Drexler são sensíveis e inquietantes. Sua poesia em espanhol é facilmente compreensível em português. É uma poesia recheada de diferenças. A sonoridade também é tomada por gostosas misturas. As melodias das suas canções brincam de diferentes maneiras. Brotam de diversas culturas. Cada musica é uma imersão em uma experiência única. E assim formadora de luminosos instantes poéticos. Instantes eternos, sentidos via sensibilidade. A harmonia do uruguaio também tem um quê de “sinergia entre o arcaico e o tecnológico”, parafraseando o provocativo sociólogo da cultura Michel Maffesoli. Afinal, Drexler junta colheres de alumínio batendo em taças de vidro com “samplers” e outros recursos eletrônicos; tal como na italiana “Lontano, lontano”. Por isso a referência à arte do uruguaio associada à categoria que Maffesoli utiliza – ao descrever o cotidiano pós-moderno de nossa época. “Lontano”, que significa longe em italiano, marca uma distância que não se verifica em relação à pluralidade idiomática na arte de Drexler. Ele canta em inglês, português, o natural espanhol, como também no italiano de lontano. Escutando algumas músicas pensei em algo como uma milonga pós-moderna. Aliás, há muita milonga nas canções de Drexler, porém temperadas com muitos efeitos e detalhes que as conduzem para além das tradicionais milongas de outrora. Drexler cria com muita sensibilidade pequenos lugares em suas músicas. Tais lugares criam um espaço de transcendência poética daquele que escuta ao conjugar sensível e profunda poesia com melodias incríveis.

A musica “la vida es mas compleja de lo que parece” (a vida é mais complexa do que parece) traz o importante tema da complexidade do cotidiano. Enquanto em geral somos guiados pelos objetos, a linearidade de nosso olhar nos cria o obstáculo de “ver” a profunda complexidade das coisas além-superfície. Diz a canção: “Yo estaba empeñado en no ver, Lo que ví, pero a veces, La vida es mas compleja de Lo que parece”. No horizonte da complexidade, que segundo o pensador Edgar Morin diz “tudo está ligado a tudo”, Drexler canta o desencanto de Disneylândia. E sua Disney está essencialmente nesse cruzamento de tudo com tudo. Há certo tom árabe distante em que Drexler cantarola essa poesia. Ora, se Disneylândia pode ser considerada o símbolo do ocidente – enquanto que o mundo árabe nos remete ao não-ocidental, então a canção nos coloca de frente às ironias do consumo de “Mickeys”.

No horizonte de uma velha querela, Drexler canta uma milonga de um mouro-judeu que vive com os cristãos, e que é irmão de todos dada a sua origem. Sim, não há povo que não se (a)credite como o povo elegido. Enquanto seres humanos, somos todos o tal povo escolhido. É a possibilidade do encontro na diferença. Já “Guitarra y voz” mostra que algumas vezes o sentido vem sempre no fim.

Em todas as suas composições os sentimentos fazem ”Eco”. Eles vertem. Um romantismo permeado de sagacidade. Por vezes de forma imagética na descrição, como o sujeito que olha pela janela do bar e vê em todas as mulheres que passam aquela que ele ama (“Causa y efecto”). Às vezes como nas “Horas” que passamos plugados com aqueles que amamos. Também imagética a metáfora de “Cara B”, pois quantas vezes não arranhamos o nosso relacionamento ao cobrarmos aquilo que não é real. “Inoportuna” rememora que os amores e paixões não avisam a hora de chegar – eles nos atravessam. Cruzam a nossa vida causando uma deliciosa sensação de “o que devo fazer?”. Não queremos respeitar o tempo nesses momentos, ou seja, o amor é urgente!

Na música “La infidelidad de la era de la informática”, não há separação entre forma e conteúdo. O barulhinho do MSN na melodia, adicionado a temas da era da informática em sua letra, retrata uma nova condição de administração dos espaços em um relacionamento afetivo: o espaço virtual.

Em seu último trabalho, “Amar la trama” (2010), o compositor veio com um disco marcado por instrumentos de sopro, com uma minuciosa atmosfera jazzística. Nesse sentido, “Mundo abisal” – talvez a melhor música do disco – nos conduz a uma imersão ao interior do mundo do amor. Tanto enquanto amor carnal, pois Mundo abisal é a descrição da cópula perfeita; tanto enquanto ao mais abstrato, pois é a descrição do amor enquanto a sensação do sublime. No clímax da canção temos a imagem de estarmos transcendidos ao mundo abissal. E é quando entra um solo de saxofone abafado, lá embaixo. Dentro de tal mundo...

Poderia continuar por mais diversas canções a encontrar significativas referências de sentido. Entretanto, paro não sem “Antes” descrever como tudo se transforma em melodia com Drexler. Disse Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". E Drexler transformou em poesia.

Sua canção ilustra que ao nos relacionarmos está em nossa natureza projetar aquilo que recebemos, isto é, aquilo que já trazemos como nossa bagagem; pois já sempre estamos em algum ponto de nossa própria história. Afinal, somos seres históricos. Assim sendo, quando nos encontramos com o outro, “cada uno lo da, lo que recibe, y luego recibe lo que da”. Damos a projeção de nossa história e ao mesmo tempo somos projetados historicamente pelo outro. Assim nos relacionamos. Não poderia haver mais bela conclusão: nada se perde, pois tudo se transforma! Tudo se transforma em história quando estamos afetivamente juntos ao outro. E desse modo tudo se transforma em nossa história. É o colorido da vida. Talvez como Nietzsche, Jorge Drexler perceba a existência humana como a atividade de dar cores ao cotidiano.

Jayme Camargo da Silva

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

elite

A ELITE BURRA (e a náusea que causa)

Tenho amigos na elite (ricos e bem nascidos), ao passo que o coração é um critério e não o bolso no momento da escolha afetiva. Entretanto, após conviver durante quinze anos com diversos tipos de sujeitos abastados aprendi a conhecê-los. E tem um tipo que eu desprezo com toda a repulsa possível devido à náusea que me causam. Falo de uns playboys babacas que passam a vida protegidos e quando acham que são adultos começam a emitir opiniões sobre a vida em geral. No início são protegidos fisicamente nas cascas existenciais que a elite cria para resguardar seus frágeis bebezinhos. Com o passar do tempo à proteção passa a ser simbólica, isto é, via cartão de crédito da família. Criticam cotas universitárias para minorias étnicas sendo que o papai pagou um colégio bom e caro para ter a entrada facilitada na federal. São contra médicos estrangeiros para atender aos pobres, mas quando ficam doentes contam com um plano de saúde classe “gold” e o amparo de qualificados hospitais como o Moinhos de Vento. Quando se formam na universidade contam com a influência do papi para imediatamente ingressarem com tranquilidade no mercado de trabalho. Ou seja, não fazem ideia do que significa a sigla “Sine”. Quando completam 18 anos vão tirar a CNH para dirigirem o carro ganho de presente; e assim bradam quando protestos pela redução das passagens atrasam a sua ida para a academia de ginástica. Passam a vida toda convivendo alheiamente com a corrupção da direita, mas só gritam quando a esquerda está no banco dos réus. Querem a redução da maioridade penal, na medida em que o encarceramento da pobreza é a solução mais fácil para que suas vidas sejam mais tranquilas. Muitos são racistas, machistas e sem qualquer alteridade; ao largo do capitalismo e suas consequências oportunistas. Em suma, esses sujeitos não lapidam a sensibilidade devido a sua trajetória de vida; não aprendem nada com as suas vivências plastificadas. Falta-lhes pele. E somado a esse aspecto são despreparados intelectualmente. Faço a ressalva: conheço grandes intelectuais de direita – de fato não é esse o meu ponto. Refiro-me aos sujeitos que tiveram todo o benefício estrutural e não leem dois livros por ano. E o único que leem até o fim, normalmente, é de autoajuda ou de literatura medíocre ala Paulo Coelho. Pois esses intragáveis sujeitos opinam sobre as inúmeras circunstâncias que referi. Sem ter o menor preparo de uma vida vivida de verdade, e tampouco a instrução conceitual que o dinheiro poderia ter comprado. Contra esses fica o meu apelo: deixem as questões de envergadura da vida cotidiana para quem se prepara para lidar com elas. Tanto na pele como na cabeça. Para finalizar, lembro uma discussão sobre direitos humanos que tive ao fim de uma aula ainda no curso de direito, com um “jiujiteiro” mais ou menos aos moldes que descrevi. Eu disse para ele: “nunca mais vamos conversar ou discutir; somos de academias diferentes”. Na verdade, a diferença é maior. É uma questão de “crasse”!

Jayme C.             

terça-feira, 12 de novembro de 2013

oscar wilde e dorian gray

Para Cândida

Parabéns com Oscar Wilde (sobre almas eternamente belas)

Desejei feliz aniversário da seguinte forma: “muitos parabéns, que tu sejas eternamente bela como Dorian Gray!”. E a garota respondeu o seguinte: “Talvez obrigada. Não sei o real sentido da tua frase... Qual a razão pra ti? Pelos parabéns, sincero obrigada!”. Daí lembrei que muito embora a beleza, o personagem do livro de Oscar Wilde é totalmente sem escrúpulos. Minha intenção, entretanto, era nobre... Fui movido por algo subjetivo, além da muito sutil proximidade fonética de parabéns com Dorian Gray. Ou seja, estava me referindo à alma da menina aniversariante. Eis a essência parabenizante da referência. Meu horizonte o fato da alma ser exatamente aquilo que podemos tornar eternamente bela em nossa existência. Basta nos preocuparmos com ela e irmos a esculpindo. Ora, é nosso corpo que sofre a corrupção do tempo. Daí a busca do personagem de Wilde. Dorian Gray era um rapaz extremamente lindo da sociedade londrina. Ao servir de modelo para um amigo pintor, desejou que o quadro envelhecesse em seu lugar para que continuasse eternamente jovem e belo. Seu desejo é atendido e a partir daí a sua vida muda. Dorian se transforma em um sujeito egoísta e mau; muito embora a beleza assegurada com o não envelhecimento obtido. O seu equívoco habita no ponto ao qual me apoiei ao utilizá-lo com a garota. Quiçá Dorian devesse ter se preocupado com a alma ao invés da carcaça. É possível que os deuses tivessem lhe reservado um destino melhor. Uma alma eternamente bela tal como a da aniversariante. Que, todavia, também é linda no sorriso; assim sendo, desejo que preserve a beleza subjetiva na passagem do tempo!

  Jayme C.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

edukators

Por favor, você me dá licença, obrigado!
Tenho evitado escrever sobre o comportamento das pessoas com relação à cidadania e educação. Minhas limitações me impedem de cobrar a cidadania alheia, na medida em que eu próprio ainda não sou um cidadão 100 %.  Minha última campanha comigo mesmo é nunca mais jogar bitucas de cigarro no chão. Entretanto, se tem um aspecto no qual faz tempo que eu me condicionei a ser educado é no por favor, com licença e muito obrigado! Eu e o querido do Rodrigo Schuster estávamos em uma festa e quando fui pegar um etílico no bar ele não deixou de observar: “puxa vida, Jayminho, és dos primeiros que eu vejo que tem educação ao ser servido por alguém na noite; o normal das pessoas é não pedirem por favor e tampouco dizerem obrigado!”. O Schuster não só é gente fina como amigo, mas é um amigo gente fina, isto é, um sujeito deveras educado. Outra razão me faz escrever sobre esse ponto. Semana passada ao tentar me locomover em uma festa aqui da província, fui pedindo licença até que um paquiderme existencial resolveu me xingar por eu ser educado. A besta humana achou que eu estava sendo irônico ao pedir licença e queria tumultuar. Na mesma hora tive a impressão que o caos estava se aproximando. Quando a educação é compreendida como ironia, ou seja, não é compreendida, então de fato fica provado o nosso fracasso como civilização. Já tinha passado por situações parecidas, pois as pessoas nesse quesito de deslocamento no interior de lugares abalroados não tem a mínima gentileza. E gentileza gera gente ilesa. Do contrário damos vazão ao nosso lado animal e acabamos promovendo pequenas barbáries.

Jayme C.