segunda-feira, 16 de maio de 2011

a culpa é do Fidel

filme que pode ser visto como a expressão do múltiplo no simples. simples, pois o fio condutor da narrativa é a vida cotidiana de uma pequena garotilda. múltiplos são os acontecimentos que povoam ao seu cotidiano. seus pais viram comunistas e toda a estabilidade que possuía se vê transformada. sabemos desde a lei de Lavoisier e da melodia de Jorge Drexler que "tudo se transforma". porém, aos 10 anos e sem uma melhor explicação vinda dos mais velhos, "tudo se de-forma"... filme sobre a solidariedade, os pequenos-lugares-do-cotidiano e o amor.

Jayme Camargo



domingo, 15 de maio de 2011

Meu coração ficou na marca do pênalti (pequena prosa de um domingo griz)


À “tampinha” do meu coração

Meu coração ficou na marca do pênalti

Meu coração ficou na marca do pênalti. Não apenas pela decisão do Gauchão, mas também pela “partida” última. Após cinco noites e quatro dias de afetiva movimenta-ação, teve na divisão geográfica mais uma vez sua condução. Domingo de decisão. Dê cisão. Separação de cidades. Separação da cidade que do gre-nal é condição. Vermelho e azul nas aortas da pulsação. O acordar-se as seis da “madrugatina”, nos últimos suspiros de nossa re-união. Unimos e nos re-unimos desde que nos encontramos. Tal qual Grêmio e Internacional nos desígnios de uma final. Um dia cinza, que chorou esporadicamente, bem como minha emoção. E assim me vi, ao fim dessa tarde griz, com meu coração duplamente na marca do pênalti. Já havia perdido na primeira partida – o triunfo na segunda significaria o calmante de meus “ais”. Tudo flui e tudo vai. A “tampinha” do meu coração foi embora a sua terra natal. Fiquei como uma criança sem papai Noel, foi uma sofrida “partida” internacional...

Jayme Camargo – 15 de maio de 2011, 21:32

terça-feira, 15 de março de 2011

O CHIQUE DO BREGA

Não há ser humano que resista a um espelho. Verificar como seremos vistos pelo “outro” é exatamente o que nos constitui como sujeitos. Almejamos ser desejados. Do desejo-do-outro a imagem funda a moda e nos deixa uma questão: será que somos chiques?

O CHIQUE DO BREGA

As sociedades modernas se caracterizam tendo como principal mito fundante a questão da imagem. Oscar Wilde, ao escrever o “Retrato de Dorian Gray”, pretendia nesse contexto não apenas des-construir aos costumes (hipócritas e conservadores) da sociedade européia do final do século XIX – começo do século XX. Wilde estava a destacar – tal como Tarantino o faz com o fato de nossa natureza ser transgressora e violenta – que o Homem ao questionar a existência de Deus, não mais o teria como sua imagem e semelhança; assim como os fervorosos religiosos acreditaram ao longo do mundo medieval. O homem passa a ser a medida de todas as coisas, assim tornando-se a sua própria imagem e semelhança.

Dorian Gray era um rapaz extremamente lindo da sociedade londrina. Ao servir de modelo para um amigo pintor, tendo em vista a precisão resultante da pintura, desejou que o quadro envelhecesse em seu lugar para que continuasse eternamente jovem e belo. Seu desejo é atendido e a partir daí sua vida sofre inúmeras mudanças.

A vida humana como um todo é afetada com a mudança do medievo às "luzes", pois a partir dela os homens passaram a se olhar mutuamente. Assim, passando a observar aos diversos modos de vestir e comportar-se possíveis a partir da modernidade. Nesse horizonte aparece o fenômeno da Moda, o qual se revela como um elemento determinante no passo dado pelo homem em direção à dimensão estética. A Moda a-parece como o novo Deus a ser seguido pelos homens, numa espécie de tentativa de reconstrução de um absoluto que atenda a todas as demandas humanas, como havia sido a figura do sagrado durante os séculos passados.

A Moda cria o chique e o brega. Funda o padrão de conduta a orientar o imaginário da integralidade das pessoas – o chique; como também o que (supostamente) não serve de referencial a ninguém – o brega. A Moda assume uma postura de estabelecimento de um padrão com pretensões universais. O chique se materializa na vida de cada um dos indivíduos como a grande meta a ser alcançada. O pensador francês, Guy Debord, fala em uma “Sociedade do Espetáculo”, na qual em um primeiro momento abandonamos o “ser” pelo “ter”, para após substituirmos o “ter” pelo “parecer ter”. Essa é a mais nefasta conseqüência que a relação de poder instituída pelo chique acaba promovendo: a frivolidade da ditadura da imagem faz com que as pessoas dêem sentido às coisas a partir de um referencial alheio as suas próprias vidas, portanto, vazio de si mesmas. A Moda impõe um materialismo efêmero, que termina por secar a nossa já escassa responsabilidade com os outros seres humanos. Nossa racionalidade acaba refém de uma verdade-do-objeto, muitas vezes gerando um vazio em nosso cotidiano.

O brega surge como tudo que se põe de maneira diferente ao status quo imposto pelo chique. Ao nos depararmos com referências distintas ao "correto" - o chique, definimos como sendo algo brega; principalmente ao nos referirmos ao modo de vestir das pessoas. Ao elucidar a construção do Chique - enquanto essência do fenômeno da Moda - é possível retirar o véu de nossa ignorância ao acreditar que ele exista concretamente além de em nosso imaginário. A exteriorização do que concebemos como sendo o chique, assim, torna-se uma evidente grosseria.

O denominado brega se perfaz como o modo de ser-no-mundo das pessoas desfavorecidas pelas relações de poder. Aquelas que subjugadas cultural-economicamente pelos mais fortes, ficam aquém do considerado chique pelos donos do poder. São bregas, segundo os chiques, por não se adequarem às formas que o mundo das aparências implica como padrões de gosto e conduta. Não se adaptam as aparências, pois sobrevivem em um lócus onde impera a 'transparência'. Aliás, é exatamente esse o chique do brega, uma vez que não há nada mais chique que a luta que as pessoas humildes travam contra as adversidades diárias que a vida cotidiana lhes impõe. Distantes do que o senso comum define como a “etiqueta”, possuem as relações embasadas na simplicidade verdadeira que estrutura o chique do brega.

É válido lembrar, ainda, que no livro de Wilde, quando Dorian Gray tem a sua vontade atendida, transforma-se em um sujeito devasso, egoísta e mau; muito embora a beleza assegurada devido ao não envelhecimento obtido. Quiçá tamanha harmonia nas formas implique em tantas mazelas na alma como acontece com o personagem. Possivelmente seja esse o preço do chique!

JAYME CAMARGO

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Coração vaga-mundo


Odeio meu coração vagabundo que tanto me faz sofrer por amor. De amor à morte parece ser a sua estrada. Um estrado como base que não segura. Secura que paralisa por dentro. Inseguro na vida a carência como condição. É condução. Da melancolia que acompanha e se faz companhia. Que penetra. Que “pé-na-bunda” é causa. É casa sem chão. Casamento que em casa mente. Odeio meu vagabo coração por ser tão verdadeiro. Timoneiro de emoções. Perdido como um Torcedor de time que não existe mais. Sozinho em seu estádio – povoado pela multidão. Pela inútil transparência. Na transa-aparência a obscura ausência. Meu coração é um curador sem cura. Na sapiência da razão a sua douta ignorância. Ele não aprende. Não apreende. E Não prende. Ignora o jogo. E assim acaba expulso. Vai-te embora coração perdido! Que desde outrora partido, me derrota na partida. O jogo só termina quando acaba. Mas, meu coração, ah, meu inútil coração, me despe e não recebe recíproca. Me afoga num copo com cicuta. E assim além de tudo me envenena. Me afasta cada vez mais de Vênus. Me joga “longes” no espaço. Coração doido, não pode com a terra e deseja a Via Láctea. Coração doído. Apertado de des-ilusão. Coração que o passado carregou solidão. Carregado coração se encarregou de ser a minha sina. Minha marca no existente. Meu futuro que segue. Coração... vaga-mundo.

Jayme Camargo

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sobre patricinhas e comportamentos afins...

Ensaio sobre a critica da razão DURA – "não é mole".


Vado e Jaymin reunidos para um mate e a expressão de uma idéia. Nosso tema é “patricinhas e comportamentos afins”.


Acreditamos em todas que acreditam no Rosário. Enquanto nossas colegas lá se formaram, lá por “Nossa senhora” nos de-formamos. O mais “sarcáustico” disso tudo é que nossa de-formação é o que possibilita essa reflexão. Jaymin virou um ex-advogado falido que luta contra a “balança”, mas não o símbolo do direito; fez do direito o errado. Vado é um vagabundo iluminado que luta contra a “dq”, mas vai muito bem, obrigado! Escrevem como terapia e agora farão mais uma terapia em sua geração: a de choque. Eis o que as patricinhas e suas posturas pedem para levar – 100 eletrodos de palavras nada siliconadas como suas mentes e seus desejados peitões. Peitões inflados como seus egos. Vaidades, como acontecem normalmente ao todo dos seres humanos, porém inflamadas em exagero tal como sua ansiedade pelo poder. De serem possuídas. De serem desejadas. E assim compradas e levadas para casa por um macho. Certamente um sujeito que tenha um cartão de crédito ilimitado no “american stress”. Falamos de “comportamentos afins”, pois estamos tratando “patricinhas” como o símbolo de uma determinada postura. Alô, garotas por aí, não pensem vocês que as “patis” estão apenas na elite, ou em nichos sociais específicos. Não. Existem muitas garotas na periferia que agem como uma patricinha, assim como nem todas as mulheres são consumidoras da vida. Mas muitas a vida consome pelo desejo. Concordamos no aspecto que as emergentes são as da pior estirpe. Da breguice ressaltada por querer se fazer vista e ainda não possuir categoria para tal, até a falta de educação marcante que o mimo recente a vida lhes deu. Às vezes por sorte. Quase sempre por morte. Seu mote na vida é sempre o maior dote a ser recebido. Traidoras do coração na vida, a vida lhes devolve traição dentro de casa. E fora. E dentro. E fora. E dentro. E fora. E dentro... De si, apenas a razão funciona. Seus corações são duros como a razão kantiana. Aliás, ao escrever a “Crítica da razão pura”, Kant não imaginava terminar sendo tão determinante na postura “razão dura” de tantas garotas hoje em dia. Muito menos imaginava existir patricinhas. Nuca fomos muito amigos de Kant, escrevemos com Nietzsche no coração. Assim falou Zaratustra: “Dolce & Banana para elas”.


Porto Alegre, 11/1/11, 11:11 da manhã. O “huno[1]” foi o nosso começo e como sempre é o nosso fim.

Vado Vergara e Jayme Camargo.



[1] Hunos: Antigo povo nômade da Ásia central que devido a sua proeza militar e disciplina, mostraram-se imbatíveis, tirando todos do seu caminho.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Tonho crocco e a antropofagia da Gang da Matriz


A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se impõem a todos.

Maquiavel

Tonho crocco e a antropofagia da Gang da Matriz

Tonho crocco colocou no ar o vídeo – Gang da Matriz – oportunamente criticando o aumento de 73% que 36 deputados estaduais deram a si mesmos. Impressionante a agilidade de Tonho, na medida que todo o movimento indecente dos 36 caciques foi um rápido ritual. Assim, Tonho teve que ser veloz na construção mental da rima, como também na produção do vídeo. Pois, realizou seu ato de cidadania com a competência e sagacidade que lhe são próprias. Nunca fui muito próximo de Tonho, embora tenha sido apresentado a ele por um velho amigo em comum. De lá para cá sempre fiquei com a atenção chamada para a sua simplicidade e humildade. Sabemos como existem pessoas afetadas pelo mundo da fama. Tonho passa “Longes” disso, para usar o termo de Vitor Ramil, outro grande valor da província que, guardadas as diferenças com Tonho, esbanja a mesma categoria. O vídeo-protesto é uma intervenção. Aliás, a mais instigante intervenção que se viu na província em relação ao “crime” da gang da matriz. Tonho acertou em cheio. Da melodia dos Beastie Boys ao “toniolo vive” pichado em seu quarto. Um autêntico cidadão exercendo a arte como um modo de fazer política. Política no cotidiano e a partir do cotidiano. Casualmente me criei no Alto da bronze e é lá que voto em dia de eleição. Devíamos ouvir a musica de Tonho sempre que estivéssemos nos dirigindo às urnas. Comentei ao ver o vídeo a primeira vez que havia lampejos de antropologia em sua base. Na última quinta fui ao show de Tonho no Ocidente e comentei o mesmo com ele. Sorrindo ele me disse: “é antropofagia”. Na hora concordei. De fato, se o protesto vira intervenção, a antropologia assume ares de antropofagia. Diz a lei do antropófago que “só interessa o que não é meu”. É exatamente esse o horizonte da canção “Gang da matriz”. É exatamente às avessas o comportamento dos integrantes da gang – para eles, pois, só interessa o que é seu! Antropofágico Tonho, conseguiu fazer algo genuíno a partir da assimilação das muitas diferenças que constituem nossa cultura. É preciso descolonizar a forma e o conteúdo como a intervenção do vídeo o realiza. É importante destacar, para finalizar, que na etimologia grega de antropofagia, está a condição humana de mastigar aos próprios homens. Creio que Tonho tenha mostrado uma forma de defender o interesse público dos 36 canibais integrantes da gang da matriz.

Jayme Camargo da Silva – mestrando em filosofia



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sobre o Mundial: a burguesia vermelho e "branca" em Abu Dahbi


Deus está morto.

Nietzsche

– a burguesia vermelho e “Branca” em Abu Dahbi


Olhei ao fatídico jogo entre Inter e Mazembe junto com meu caro amigo Atahualpa (doravante “Atah”). Não costumo secar desnecessariamente. Porém, antes para evitar um sábado próximo como foi o domingo de 17 de dezembro de 2006, do que por qualquer “anti-coloradismo”, torci muito pelos africanos. Aliás, salve mãe África, tantas vezes explorada, raríssimas vezes “exploradora”. Pois, o Congo representado pelo Mazembe explorou. Não só devido ao fracasso técnico do ataque colorado, nem de seu (ir)regular arqueiro, mas também graças à forte ligação com o divino que os africanos demonstraram. Em cada lance de perigo no jogo eles olhavam para o céu. Tanto no ataque quanto na defesa. Seu goleiro – de nome “Kidiaba” – a expressão técnica que os colorados não têm em Renan. Um goleiro com o diabo no corpo, que dança, defende e, assim, parece esbanjar um contato com deuses e demônios como poucas vezes o futebol viu. E a torcida africana não ficou para trás. Mesmo em menor número frente à maioria colorada, exibiram sua linda negritude com uma charanga, cânticos e a alegria sanguínea de sua terra. O sangue pouco apareceu nos vermelhos. Os colorados presentes em Abu Dhabi pouco refletiam o “clube do povo do RS”, como, por exemplo, se percebe no Beira-rio. Aliás, quando às câmeras de televisão passeavam pelas arquibancadas, não se via um só sujeito negro entre os colorados. Algo interessante para o clube que tanto se orgulha de seu passado “afrikaner”. Atah não deixou passar: “olha lá, a burguesia colorada da província que foi passear em Abu Dhabi”. E sem pestanejar concordei. Começávamos a des-vendar a antropologia daquele confronto. Os africanos fizeram toda a preparação com o “místico” que lhes são corriqueiras. Tanto torcida quanto jogadores em campo. Os colorados, com relação ao time, pouco lembraram aquela consistente equipe das finais da Libertadores. E nas arquibancadas, a burguesia vermelho e Branca em Abu Dhabi, passou a léguas de distância de torcedores que no Beira-rio, por exemplo, jogam balas de mel e fazem com que todos os santos apóiem o colorado em suas jornadas. Nada disso. Os colorados que lá estavam eram de outra relação com a quadratura da vida “deuses/mortais - “Terra/mundo” (Heidegger). E assim a ironia da história deu-se mais uma vez, fazendo com que o colorado perdesse também pela ausência da negritude sanguínea em Abu Dhabi. Em todos os sentidos, no campo e na arquibancada, do goleiro (Renan) ao centroavante (Alecssandro), entre deuses e mortais. No futebol como na vida, por vezes, os deuses fazem justiça aqueles que lhes são mais próximos. Tanto faz, em campo ou na torcida.

Jayme Camargo da Silva

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Novos Baianos em Buenos Aires – “apenas viro me viro”...

Fui a Buenos Aires com um grupo multicultural. Éramos brasileiros, japoneses, chineses, hondurenhos e espanhóis. Não vou nem falar do charme e “interessância” da cidade, pois tal – outros com mais gabarito sabiamente já o fizeram. Falarei de uma festa não menos multicultural que acabei fazendo. Essa noite havia começado cedo. Eu e o pessoal com o qual viajei tínhamos ido a um lugar pouco antes de “Palermo”. Era um domingo à noite. A festa era de hip-hop. O lugar me (a)pareceu de dois modos. Primeiro com o que ele pretendia ser, ou seja, seu projeto era ser uma espécie de “elo perdido” – lugar em que rolavam festas interessantes na rua Garibaldi no fim dos anos 90. Do outro modo, vi o lugar como aquilo que se tornou, ou seja, conforme seus habitantes, músicas e práticas, isto é, parecia estar no “Gê Powers” – bar de black music também na província da virada do milênio. Acabamos voltando para o hostel umas 3 e meia da manhã. Todos foram direto para os seus quartos. Eu, de outra banda, fui comer meu sagrado alfajorzinho antes de dormir. Em Buenos Aires é sempre de bom tom comer um alfajorzin antes de dormir... Torna-se mais fácil sonhar com os anjos. E não deu outra: com um anjo me encontrei. E acabou não sendo no sono. Antes pelo contrário, acabou sendo um sonho.


Ouvi ruídos e vozes ao fundo do hostel, enquanto preparava para me retirar ao leito. Resolvi, no melhor estilo Bial, dar uma “espiadinha”. Assim, avistei uma festa rolando na cozinha/salão de festas. Fui prontamente convidado a me juntar ao grupo, por um menino americano chamado “Ethan”. Ele era da Califórnia, mas estava morando em Buenos Aires. Olhei a festa mais de perto e logo diagnostiquei – havia apenas 3 meninas e um bando de “cuecas”. Uma delas misteriosamente sumiu pouco depois que eu me aproximei. Uma outra estava com uma criança e um “magrão” a tira-colo pajeando a sua atenção. A terceira estava em um grupo que tinha bolivianos, argentinos, americanos e espanhóis. Ela falava constantemente e em espanhol. Era uma gatinha. Fiquei uns 28 minutos naquele chove-não-molha e estava praticamente abortando a missão. Quando de repente a bela garota que falava espanhol interrompeu uma fala no grupo que estava ao meu lado, e fez uma interjeição em português. Olhei para ela com alegria na retina e disse: “Tu fala português?!”. E ela também com alegria e surpresa respondeu: “E você também. E bem!”. Daí eu disse que era brasileiro, de Porto alegre, e indaguei de onde ela era aqui no Brasil. Ela disse que era mineira. Eu perguntei se de “BH”. E ela falou que não, referindo que era de Varginha. Quase sem pensar estiquei o dedo indicador direito e com uma voz roca declarei: “ET telefone minha casa”. E ela reciprocamente parodiou meu gesto e minha fala. E completou dando um lindo e largo sorriso: “que coisa boa falar com um brasileiro”. Seu nome era Thais. Estava há alguns dias em Buenos Aires e se sentia um pouco só naquela noite. Ethan, percebendo nossa sincronia nas metáforas de nossa língua, aproximou-se de nós, e abraçando Thais, tacou-lhe um beijo. Era um beijo do tipo – “olha aqui, ela já está ficando comigo, sai para lá...”. Eu fiquei dividido entre o encantamento pela menina da cidade onde os ets foram supostamente vistos, e o respeito pelo gringo que me havia sido gentil.


Conversamos mais meia hora quase que apenas um com o outro e o encantamento felizmente era compartilhado pela mineirinha. Ela tinha uma sensibilidade legal e também era inteligente; ou seja, “nos achamos”. Quase que juntos propusemos um ao outro sair daquela festa e ir caminhar pelas ruas de Buenos Aires. Desejávamos flanar com uma liberdade que as ruas de “Amsterdam” melhor aceitariam. Uma dupla liberdade, aliás, pois um beijo entre nós era algo premente. Pois, ela recolheu seu agasalho e sua bolsa, deu “adiós” a todos, e saiu de mão dada comigo. Ao cruzarmos a porta do hostel (que se chamava Tango) nos beijamos com vontade. Ganhamos a madrugada de Buenos Aires juntos. Fomos cantarolando até a rua “nove de julho” e lá começamos a cantar e dançar: “quando cheguei tudo/ tudo/ tudo estava virado/ apenas viro-me-viro/ mas eu mesma viro os olhinhos/ só entro no jogo porque/ estou mesmo depois/ depois de esgotar o tempo regulamentar...”. A menina dançou. E foi lindo. Senti-me como uma espécie de Al Paccino pós-moderno em um “perfume de mulher” à brasileira. Nada mais tupiniquim que um “viro-me-viro” para efetivar um afeto.

Jayme Camargo da Silva - primavera de 2010