O acesso ao direito como possibilidade de transformação social
mestrando em filosofia e ex-advogado
ao Vado Vergara,
pela persistência em continuar sentindo
no dia em que ela não atende
meu coração em aperto e abandono
sou colocado no mudo
na estrada destruição do sonho
não permito mais
que meu pensamento exista nela
pensamento que des-exista
na mesma medida para ela...
o amor é jogo em seu começo
e no seu começo em jogo:
angustia, dor e sofrimento
é relação de causa – sem efeito
é defeito, é puro desafeto!
desfeito o projeto não mais a protejo
não mais a penso, não a respiro
não piro pela sua ausência
foda-se meu sentimento!
ela é quem não o merece
o despeço em meu despedaço
o impesso de lhe dar espaço
a desnudo do meu imaginário...
Jayme Camargo - inverno de dois mil e dê (2010)
Ao mestre Juremir Machado da Silva,
pela independência na ironia da “província”.
A beleza da Brigada
Por essa ninguém esperava. A governadora Yeda, através de sua tentativa de reforçar a tropa de choque, terminou foi chocando aos corações dos gaúchos. Logo ela, tantas vezes acusada de ser pouco feminina, de ser dura como um xiita militante. Pois, o que a governadora pretendia com a atitude de colocar 3.500 homens a mais nas ruas, certamente era reforçar sua política criminal conservadora. Em 3 anos e meio de governo, registraram-se na área da segurança pública inúmeras práticas do governo Yeda identificadas com aquilo que, em direito penal, denomina-se “direito penal do inimigo”. Isto é, em linguagem bem cotidiana, “atira e depois vê o que acontece”. Poderíamos ser mais acadêmicos, mas não é essa a pretensão ora em questão. Assim, faremos mão de outro exemplo cotidiano, sobre a pratica da política criminal do inimigo, nos últimos anos de governo. O coronel Mendes foi o comandante geral da Brigada Militar. Promotor de (in)segurança pública, causou pânico a toda sociedade gaúcha quando, frente à acontecimentos que envolvessem “grupos de pessoas”, deveria responder pelas liberdades, igualdades e fraternidades, dos cidadãos que estivessem presentes. Como sempre, quando a violência parte das instituições oficiais, elas oficializam violentos. Conferem grau de promotor de políticas públicas, a sujeitos que des-conhecem o necessário republicanismo no trato com a esfera pública. No direito penal do inimigo é necessário referir, ainda, que ele ignora o fato concreto que a violência implica necessariamente em mais violência. Um princípio verificável constantemente em nosso cotidiano. Assim, na tentativa de reforçar o “sentimento de segurança” dos gaúchos, a governadora “recauchutou” o quadro da Brigada Militar. Incrível foi a conseqüência. O quadro não só é bastante jovem, mas também é igualitário no gênero. Ou seja, começaram a ter pelas ruas da capital inúmeras jovens brigadianas. E o mais esplendido reside no conteúdo estético: muitas delas são belas. Sim. Não pensem em brigadianas como as jogadoras da seleção brasileira de futebol feminino. Não. De fato não é esse o paradigma da brigada de Yeda. Nossa tropa de choque está qualitativamente equipada de belezas. Resolvi escrever esse texto, devo confessar, pois me peguei “secando” uma brigadiana, em uma rápida ida de T7 do Bom fim à Cidade baixa. Frente ao acontecimento, não pude deixar de perceber a presença de um duplo sentimento em meu coração. De um lado estava retido pela efêmera paixão surgida por “soldada Alves”, presente no coletivo. Por outro, temor frente ao que poderia decorrer: imaginem se soldada Alves, no horizonte do direito penal do inimigo e sua máxima intervenção penal, resolvesse me dar “voz de prisão”?! Imaginem, uma mulher em nome de uma ineficiente política criminal, não perceber que cativou alguém pelo seu lado não-policial?! Seria péssimo. Só me restaria dizer que eu estava encantado pela sua formosura, e que com todo respeito, mesmo sabendo que ela estava em serviço, eu não estava, e assim não consegui deixar de restar preso, mas preso com o coração...
Jayme Camargo da Silva
O preço da coerência é carência de competência – “o caso” Dunga.
O futebol não tem lógica. Dias atrás defendi esse argumento. Dunga, o treinador da seleção brasileira, escolheu seu grupo de trabalho defendendo a “coerência” como critério de convocação. Dessa forma, convocou jogadores medianos como Josué, Kleberson, Michel Bastos e Felipe Melo. Deixando de fora da copa do mundo, por sua conta e risco, valores como Paulo Henrique “Ganso”, Victor, Ronaldinho Gaúcho, Hernanes e Neymar. Também é verdade, certamente, que em futebol nem sempre os melhores triunfam. Sim, concedemos essa ressalva. Entretanto, impõe-se a reflexão, na medida que a seleção brasileira de futebol perdeu sendo pior que a seleção holandesa. Jogou mais no primeiro tempo, ressalva também importante. Porém, não suficiente a produção realizada na primeira etapa, restou pior que a Holanda no segundo tempo. Um jogo de dois tempos distintos; e distantes também. Isto é, o Brasil mandou no primeiro tempo, mas fez apenas um gol, enquanto que a “laranja” fez dois gols quando impôs o seu domínio. Fomos piores. Contra fatos não há argumentos. Dada essa conclusão, não podemos subtrair as críticas. Ao critério de Dunga, logicamente. Podemos simbolizar a “era Dunga” como treinador, na escolha de um determinado jogador, que foi uma exclusiva “invenção” sua – Felipe Melo. Vejamos o que há por trás dessa escolha. O volante joga exatamente na posição em que Dunga atuava, o que qualifica ainda mais a escolha para tal posição. Nuca havia disputado um jogo pela seleção, até que o comandante da coerência resolveu lhe dar a titularidade. Um jogador medíocre, que nunca havia tido boas passagens pelos grandes clubes brasileiros em que atuou. Com problemas de comportamento, sempre se revelou um jogador insuficiente psicologicamente. E no caso da Holanda, foi ele quem tratou de deixar a equipe em apuros, ao ser expulso em mais uma atitude conseqüente de sua marginalia. Engraçada a coerência de Dunga, não é? Deixou de fora Adriano, por exemplo, justificando pelo seu mau comportamento, mas entregou a posição que já havia sido sua na seleção, para um jogador medíocre tecnicamente e com postura de um maloqueiro. Dizem por aí que “o sujeito sai da favela, mas a favela nunca sai do sujeito”, e isso parece prevalecer em Felipe Melo. Não adianta morar em Turim. Aliás, o filósofo Friederich Nietzsche, que também habitou em Turim, foi um ferrenho adversário da coerência. Não acreditava nela como parâmetro para se compreender o universo do humano. Preferia uma “metafísica de artista” como o critério para compreensão do cotidiano. E no Brasil, como todos sabemos, o futebol é uma das essências constitutivas do cotidiano. Arte foi o que faltou, em uma seleção coerente com o seu valor. Se Nietzsche estivesse vivo, fatalmente relembraria Dunga que lutar em nome da coerência, é lutar apenas no plano de Deus. O único ente idealmente coerente. Esse, no entanto, o próprio filósofo se encarregou de anunciar: “Deus está morto!”.
Jayme Camargo da Silva
"os grandes navegantes devem sua
reputação às grandes tempestades".
EPICURO
A maior ironia da província em tempos de copa do mundo – notas sobre futebol e cotidiano.
A copa do mundo de futebol rola a bola pela primeira vez no continente africano. Copa que se notabilizou, em sua primeira rodada, por jogos burocráticos e excessivamente táticos. Carência de criatividade e de técnica – uma conseqüência quase lógica. “Quase”, pois não há lógica em futebol. Por aí também passa a magia e o encanto desse esporte. Aliás, o futebol é um movimento tão pouco preciso em seus resultados, e assim justificamos sua existência não-lógica, que faz com que às vezes um time com 5 atletas no meio perca essa faixa do campo para um time com 4 jogadores nesse setor. A contemporânea querela entre os esquemas “3-5-2” e “4-4-2”. Na África, a maioria andava cotando a Espanha como favorita ao caneco. E a Suíça foi lá provar que não é suficiente apenas com os chocolates. Mesmo sem dar um banho de bola na equipe ibérica, o chocolate já se deu enquanto o próprio resultado. Suíça 1 X 0. Não-perdendo o gancho da disputa entre os esquemas táticos das equipes, aqui pela província, o ex-técnico do internacional, o uruguaio Jorge Fossati, inclinava-se essencialmente pelo 3-5-2. Mesmo sem ter atletas qualificados para tal esquema. Persistiu no erro. Foi teimoso. Não conseguiu fazer duas partidas consistentes em 5 meses de trabalho. Foi muito pressionado. Brigou com a imprensa e não conseguiu sustentar a elegância de sua figura, vista apenas desde seus belos ternos e de seu charmoso “portunhol”. Mesmo que aos “trancos e barrancos” deixou o colorado na semifinal da Libertadores da América. Mas, Não adiantou. Terminou demitido às portas da copa do mundo, a qual não deve estar assistindo em solo gaúcho. Pois, todas as atenções do mundo da bola voltaram-se para a mãe-Africa, e o internacional ficou a procura de um novo treinador. Sonhou com Felipão. Cogitou o sempre cogitável Abel Braga. Quase contratou Adilson Batista, o denominado pelos gremistas de “capitão América”. A torcida rejeitou Adilson em terras gaúchas, exatamente pelo seu excessivo “gremismo”. E a torcida foi ouvida pela direção. Talvez pelo fato dela participar das eleições no clube, e esse ser ano de eleição presidencial no colorado. A maior ironia da província, em tempos de copa do mundo, entretanto, decorreu precisamente dos ouvidos dados à torcida, por Carvalho e demais mandatários do Beira-rio. A torcida bradou fortemente durante dois mil e love (2009): “fica Celso Roth, fica Celso Roth...”; e assim a direção colorada resolveu atender. Mesmo sem vergonha pelo movimento, foi dormir sonhando com Felipão e acordou com Roth junto ao seu lado. Para alguns, quiçá, acordou na “hora do pesadelo”. Imagine você, ir dormir sonhando com a Ana Paula Arósio (como o amigo-mestre Juremir Machado da Silva), e se levantar com a “nega-véia”, já desgastada de “anos sem-relação”?! Dada a trajetória perdedora, Roth merece tal comparação. Não que não possa ganhar. Aliás, acho que ganhará algum dia. Quem sabe seja agora que é só acertar em apenas 4 jogos. Mas, a trajetória de sua biografia não indica. Fez apenas um bom trabalho, no próprio inter, quando em 1997 ainda não possuía o enorme medo de perder. Talvez por ser um iniciante aquela época, e assim ainda ter fome e vontade de “vencer”. Sim. Poderíamos resumir o espírito de Roth na velha máxima do futebol: “o medo de perder tira a vontade de ganhar!”. Que gritem novamente os colorados, mas que dessa vez tenham os deuses da bola como remetentes desse chamado. Será necessário. Porém, como não há lógica no mundo da bola, tudo pode acontecer. Como acontece “desde-já-e-sempre” – o tempo é quem responderá.
Jayme Camargo da Silva