quinta-feira, 20 de setembro de 2018

PROCURA-SE

PROCURA-SE
Procura-se um amor que em primeira mão divida o cotidiano. Que se divida no cotidiano. Que Se reparta. Que Se entregue. Que não parta frente a natural dificuldade das diferenças. Que entregue sua natureza. Procura-se um amor que finalmente nos escute. Que nos sinta. Que pressinta o momento de ser forte. Que saiba antes da dor preparar o terreno e após ela tenha a sensibilidade do colo. Que tenha a delicadeza no cafuné ao dormir. Que tenha romantismo na pegada. Que não tenha receio em se apegar.
Procura-se um amor que abra os sentimentos. Que se abra ao viver cada momento. Que tenha o prazer em conosco perder seu tempo. Que tenha coragem em repartir seus tormentos. Que tenha conosco o fim da angustia. Que nos tenha como um novo começo. Que nos seja o princípio do belo. Que nos faça um bolo no dia de chuva. Que reparta à pipoca no cinema. Que nos dê à mão no beijo do filme. Procura-se um amor que nos divirta. Procura-se um amor Que se possa conversar. Que nos recolha conchinhas no mar. Que também acredite que o amor aumenta com o ar.
Procura-se um amor que tenha similitude no impacto das almas. Que tenha personalidade na discrição. Que tenha reciprocidade na saudade. Que nos mande mensagem no meio da noite. Que nos procure primeiro ao receber uma novidade. Procura-se um amor que nos leve para dançar. Que dance conosco a vida. Que junto à gente construa a história de nossas vidas. Que na distância fabrique a vinda de uma memória. Que a nostalgia se dê como esperança. Procura-se um amor que no choque entre o azul e o cacho de acácias deixe tudo lindo! Que faça Caetano refazer seu poema. Que fizesse Chico lamentar não ter conhecido. Procura-se um amor que não tenha medo. Que se jogue. Que se declare. Que a única forma de jogo seja jogar junto com a gente. Procura-se um amor que não só nos faça bem, mas que nos torne melhor. Que melhor seja impossível. Que nos transforme como disse Drexler. Que nos refunde a partir do sentimento. Que se funda com a nossa vida. Que compartilhe seus movimentos.
Procura-se um amor que preze nossa liberdade. Que acredite no valor do respeito. Que se encante pelo nosso jeito. Que tenha jogo-de-cintura na adversidade. Que tenha tranquilidade para fornecer sossego. Procura-se um amor que nos surpreenda. Que não feche os olhos antes que adormeçamos. Que não se arrependa em viver à vida. Que quando não estivermos esperando – chegue. Que nos carregue em direção às nuvens. Que nos traga a consistência na leveza. Procura-se um amor que finalmente seja um delicioso pequeno lugar. E que lá Cartola seja trilha sonora. Procura-se um amor que seja equilibrado sem ser chato. Que seja louco sem nos colocar em risco. Que seja meio bossa nova e rock´n roll. Procura-se um amor que antes seja bela que bonita. Que seja interessante. Procura-se um amor que na base há lealdade. Que tenha alteridade em seus valores. Que seja responsável com aquele que cativamos.
Procura-se um amor que se acredite. Que credite suas fichas em nosso centro. Procura-se um amor que seja por dentro, mas Que não tenha medo em botar para fora. Que dirija nossa vida quando estivermos bêbados. Que nos cuide quando convalescemos. Procura-se um amor que combine com a nossa casa. Que o astral seja harmonia. Que as noites de inverno seja acolhimento. Procura-se um amor que seja sagaz na melodia. Que no fim da tarde nos procure para saber de nosso dia. Procura-se um amor que também esteja nos procurando. Que esteja vivendo no mesmo tempo. Que não seja mais um futuro do pretérito. Que traga consigo o tempo do amor. Procura-se um amor que nos faça perder a noção do tempo. Que nos descontrole pelo envolvimento. Procura-se um amor que... Procura-se um amor... Procura-se um... Procura-se... Procura... Pró-cura... Quiçá o amor exista na cura.
Jayme Camargo - 2010/2018

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Um olhar para o que se tem
Quando perdemos algo é forte a tendência de ficar obsessivamente pensando no que foi perdido. E parece ser uma tônica na vida perdermos pessoas (por mortes morridas), amores (por mortes sofridas), trabalhos (por cortes que não deixam saídas)... Enfim, até amigos perdemos, tendo em vista o modo como aconteceram as caminhadas da vida. Nesses momentos em que estamos no mar turvo das derrotas, colocamos no mais pleno esquecimento o resto todo. Aliás, entramos em um jogo constante entre o resto do Mundo versus aquilo que não temos mais. E o nosso cego apego ao que perdemos nos coloca jogando ao seu lado, no vazio herdado.

Enquanto isso, o resto do mundo continua existindo cheio de possibilidades e de experimentações concretas de coisas que não fizemos anteriormente. E mais, é o que temos, sobretudo em face daquilo que se foi. Ou seja, é no mínimo razoável que tenhamos a lucidez de olhar para o todo.  Além disso, há uma parte muito especial nesse todo que é a das nossas construções. Isto é, o aconchego da nossa própria casa, que permite ser um porto agradável e seguro em meio às tempestades; os amigos que cultivamos e que nos brindam com a plenitude do amor fraternal; a delícia que é trabalhar com algo que nos toca o coração; os amores lindos que vem e que vão.

Talvez, o grande detalhe seja o tempo, ou seja, refletir e tentar chegar à resposta se era o tempo certo para se perder o que foi perdido. Essa avaliação é difícil, mas pode nos conduzir a melhor elaborar o luto, ou enxergar que não está morto aquilo que ainda vive. Lançar um olhar para o que se tem... Pode nos tornar mais leves, melhor humorados e com a confiança ressignificada. Afinal, como apontou um filósofo alemão, “o possível é sempre mais fecundo que o real”.

Jayme C.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

termômetro existencial

Termômetro existencial
Para o cara ser feliz tem de ser bem resolvido financeiramente, tem de ter grana, sob pena de não ter acesso aos melhores bens materiais da vida (viagens, passeios, conforto em geral). Mas tem que ganhar o “capim” fazendo o que se gosta, senão bate a crise existencial e instaura-se uma razão para justificar o nosso lado mal-humorado e reclamão.
O cara também não pode ser carente na relação com a família, com os amigos e com o amor. Tem de ser seguro o suficiente para que esse tripé não o sinta como um peso, mas, ao mesmo tempo, ser afetivo e atencioso, sob pena da tríade subjetiva (não) sentir a reciprocidade do amor que lhes dirigem. Para achar a sintonia fina interior, o cara gasta com análise e terapia, na medida em que apenas a minoria já vem com a ansiedade controlada de fábrica. Ansiedade, carência e insegurança, três estados subjetivos que tem de se lutar diariamente, sobretudo para jamais projetá-las sobre o outro (luta que infelizmente sabemos que não venceremos em 100% dos dias).
O cara tem de ser equilibrado em uma miríade de circunstâncias que constituem a sua vida. Tem de ter uma existência meio bossa nova e rock’n roll. Ou seja, tem de ser meio louco para não ficar sempre na mesmice quadrada, mas ao ser ousado tem que cuidar a sua integridade física, moral e psicológica. Toda vez que descuidamos e exageramos na ousadia/loucura, além dos problemas concretos que criamos, somos julgados pelo tribunal da razão alheia, local que “volti-e-meia” ocupamos no vacilo dos outros. Enfim, o cara não pode ser muito hedonista, porém também não pode ter uma relação estéril com o prazer.
O cara tem de fazer exercício regularmente, tem de cuidar o que come, onde mora, da sua imagem e do seu ego (é importantíssimo ser pelo menos tão autocrítico consigo quanto se é crítico com os outros). Os filhos únicos, em geral, têm de redobrar os cuidados, na medida em que muitas vezes foram criados por pais que não se trataram e que acabaram estimulando o desenvolvimento de déspotas egoístas. O cara tem de ser inteligente, sagaz e bem-humorado, caso deseje ser (reconhecido como) uma pessoa interessante.
Esses são alguns dos meus critérios para vislumbrar a independência plena; não acho que sejam válidos universalmente, ou seja, estou apenas compartilhando uma transparência (não quero determinar nada para ninguém). Em suma, o cara tem de ser independente na relação com os outros, porém deve saber que é no contato com os outros que mostramos quem realmente somos. Quiçá, essa seja uma interpretação possível do verso de Pessoa: “eu não sou, eu sou o outro”; isto é, os outros são o nosso termômetro existencial.
Jayme C

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

antes do primeiro beijo

ANTES
Eles se conheceram em meados dos anos 90. Porém, o contato dessa época resumiu-se apenas a falsa memória de que haviam sido colegas. Na virada do milênio, dividiram o mesmo prédio da faculdade, ela nos estudos da alma e ele nos estudos do pensamento. Nesse tempo, conviveram eventualmente por conta de um casal amigo que os colocou em espaços compartilhados. Ele era chato e arrogante, pois tinha consigo na juventude de seus 20 anos a ilusão de todas as verdades sobre a vida. Ela não deixou de perceber isso.
Ela foi morar na Europa, casou e construiu a sua biografia existencial potencializando as características que ele já percebera outrora, isto é, sensibilidade, inteligência e personalidade na discrição. A passagem do tempo lhe foi benéfica de diversos modos, a sua beleza aos trinta reluzia mais ainda do que no passado. Ele também cresceu. Os anos lhe tornaram mais leve e interessante. Segundo a leitura de si mesmo, a sua grande revolução passou por perceber que os outros são o nosso termômetro existencial, ou seja, no contato com o outro é que se revela concretamente quem somos...
Nesses anos que passaram, é digno de nota, ele tentou sem sucesso algum contato. Entretanto, em idos de abril, ele viu uma foto dela no Facebook e sem a presença do ex-companheiro. Após trocarem algumas mensagens, ele a convidou para sair em uma sexta feira, mas recebeu mais uma negativa e pensou: nunca será... Ele desconfiava que ela o visse com olhos do passado e que nunca descobriria quem ele era hoje em dia. No sábado, porém, ela o procurou para uma ceva e uma prosa.
De fato, ela tinha a dúvida se ele ainda era a mesma mala de antes. Consultou uma amiga em comum e ela atestou a possibilidade de ser um encontro massa. Ela foi a casa dele e eles conversaram durante mais de quatro horas. Um papo gostoso e profundo, permeado de fundamentos que só foram enunciados em nome do bom humor. Um mar de afinidades veio à tona, desde a visão de mundo até as questões mais acessórias... Trocaram olhares desejantes e aí o coração dele disparou em pulsações incontidas. Erroneamente, achou que era pelo receio do desejo do beijo ter brotado apenas em si. Não era esse o caso.
O Abraço mais bonito e demorado de suas vidas se seguiu ao primeiro beijo. O coração acelerado e o abraço estendido eram sinais do amor pleno que a vida lhes congratularia. Nunca mais se afastaram e na recíproca abertura das almas, registraram a reinvenção constante do amor que os fez eternamente apaixonados. Em um de seus intensos encontros, ela disse: te amo não apenas pelo que tu és, mas por tudo aquilo que tu podes vir a ser. Ao que ele respondeu: te amo desde antes, desde antes do primeiro beijo.
JC

terça-feira, 21 de junho de 2016

tempo no envolvimento

LÁ VEM TEXTINHO (leitura de 1'13 para não te cansares)



Na minha dispensável opinião, a expressão “lá vem textão” reflete algo do pior que a nossa geração tem. Simboliza a ilusória falta de tempo para o envolvimento com qualquer coisa. Entregamos a nossa felicidade às ordinárias rapidinhas existenciais (nos múltiplos campos da vida). Zygmunt Bauman escreveu sobre o amor liquido, sob essa perspectiva de que as pessoas não conseguem mais se conhecerem verdadeiramente; e essa condição implicando a fragilidade dos laços no cotidiano. Com relação à leitura, local-de-fala originário da malfadada expressão, a pobreza de conteúdo (“de geral”) é uma terrível consequência de não lermos mais de dez linhas sem perdermos a atenção. Nada mais nos prende, nada mais nos toca, nada mais... nada! Obviamente, o vazio existencial torna-se imperante. Carência, ansiedade e angústia são as marcas da geração que não sabe lidar/respeitar o tempo das questões mais essenciais e, desse modo, lê apenas o raso e o superficial. Comecei a ler ontem (pela terceira vez), “O idiota” (683 pgs.), do Dostoievski. Na última tentativa fui até a página 317, mas fui vencido pelo que agora é objeto da crítica. Dostoievski é o meu escritor do coração – aprendi a delícia que é investigar a alma humana a partir de sua literatura. “O idiota” traz no personagem central o “homem bom dostoievskiano”. Entretanto, os nossos idiotas são os que precisam de desculpa quando diante de um textão; esses, infelizmente, não conhecerão “Dostô” – até porque dilacerar a alma humana leva bem mais do que alguns minutos.
Jayme C.

amor

APRENDENDO (A MOR)RER


O querido amigo Mau Saldanha me procurou dizendo que ia fazer um documentário sobre os términos das relações amorosas. O Mau é um sujeito de muito coração e que acredita na força do amor como um elemento essencial na vida. Desse modo, é esse o pano de fundo que ele quer captar por trás dos términos das relações. Afinal, o amor nos toca nos começos, mas o seu anunciado desaparecimento nos términos implica o desconforto da presença na ausência...


Gravamos a minha participação no filme e devido ao meu estado de espírito atual soltei mais o lado bem humorado do que o melancólico. Narrei um “causo” de uma malfadada história com uma garota paulista que era defensora do Paulo Maluf, pois tive que terminar com ela em meio ao natal (época sugestiva para correções de rumo). Como ela era adepta da inqualificável direita cristã, revestiu-se de dificuldade o meu movimento em uma data tão significativa. O Mau deu muita risada, mas não escondeu que estava querendo o meu lado triste e não o seguro de si em suas galhofas cotidianas.

Em nossa conversa filmada, sustentou a sensível ideia de que o amor é o nosso grande ensinamento para a morte. Ou seja, com o passar do tempo nos entramos nas relações amorosas com um grau bem diminuto da ilusão de que será eterna. Depois da repetição de alguns términos, a maturidade inscreve-se em nossa derme já curtida pela melancolia da finitude. Nesse contexto, as lágrimas que por amor derramamos são preparatórias para as mortes concretas que enfrentaremos ao longo da tarefa de vivermos a vida. Ao escutar o meu amigo cineasta, imediatamente, disparei: “aprendendo a morrer... ” (será o título do documentário!). Talvez, esse horizonte faça justiça à grandiosidade do amor em todos os seus atos, isto é, pela quimera encantadora dos começos, mas também pelo difícil aprendizado nos finais.
Jayme C.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

sexo

VIZINHOS QUE NÃO TRANSAM
Um amigo que mora no mesmo prédio que eu, em estado catatônico de “sêmen-pânico”, veio me pedir ajuda. Ele relatou: “Jayminho, sexta feira passada fui ao “Carmelitas” tomar uma ceva com uma interessante mulher. Por volta da meia noite e vinte e oito já estávamos aqui no prédio. Transamos loucamente e o gozo recíproco foi o índice da felicidade do encontro. Ocorreu que emitimos alguns sons na expressão de nosso prazer. Nada exagerado, mas, talvez, um que outro gemido passível de ser escutado no “ap” ao lado. Sai para almoçar no começo da tarde de sábado e quando retornei havia esse bilhete embaixo da minha porta (anexo aos comentários). Jayminho, o que eu faço, estou desesperado?! Como assim eu não poderei mais transar em minha própria casa? Não havia nenhum outro emissor de sonidos ligado, éramos nós e o silêncio rompido, “volti-e-meia”, pelos dionisíacos gemidos. Me ajuda, tu podes ser a próxima vitima dos vizinhos que não transam...”. Sua narrativa durou aproximadamente um cigarro. Já emocionalmente envolvido com a querela de meu amigo, li o bilhete e disse: “vamos comprar umas cevas no mercadinho aqui ao lado, dialogar e elaborar uma estratégia”. Juntos, refletimos...
Primeiramente, essencial respeitar a dor do outro, ou seja, aconselhei o amigo a pedir desculpas, caso ele descobrisse e esbarrasse com o tal vizinho. Em segundo plano, que ele conversasse com o “Zé”, “zé-lador” do prédio, sujeito que tem acesso a informações privilegiadas no contexto do edifício. E que o papo com o Zé fosse num tom leve e debochado, fazendo-o compreender e se solidarizar com a necessidade da cópula, além de fazê-lo rir e interceder positivamente com o vizinho. Assustador, entretanto, é o tom moral do bilhete. Para além do incômodo concreto, caso a pessoa estivesse dormindo, parece que o barulho ser do sexo foi um agravante do delito, na aparente mente conservadora do vizinho. Conversei com o Zé e ele confirmou que o núcleo da reclamação era o fato dos gemidos demarcarem a transa. Aliás, há uma jovem e querida vizinha no apartamento bem embaixo ao de meu amigo, e ela não teceu nenhuma reclamação, muito embora seja a maior prejudicada no vazamento sonoro do apartamento amigo.   
Nesse contexto, eu e meu amigo bolamos a campanha: “Transem vizinhos!”, pois acreditamos que se todos do prédio transarem, então haverá mais tolerância com o gemido alheio, além de que é cientificamente comprovado que o mau humor, por vezes, é corolário do mau amor. Nesse ínterim, lembrei-me do grande livro “Eros e civilização”, no qual Herbert Marcuse defende uma sociedade menos repressora com relação às pulsões libidinais. Puxa vida, seria lindo vivenciar a implementação dessa utopia erótica no habitat cotidiano. Fica o apelo: transem vizinhos!
Jayme C.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

amigos amores

CINCO ANOS SEM AMAR
Um grande amigo está gostando de uma garota. Fazia cinco anos que ele não gostava de ninguém. Esses últimos anos conferiram intimidade a nossa amizade. Ele é um sujeito encantador que carrega como marca existencial algo como um cosmopolitismo sustentável. A sua força cósmica é a consequência de seus anos habitando em diferentes culturas do mundo. Cosmos designa mundo em grego antigo, e no seu caso revela o ganho que a sua sensibilidade teve em contato com a diferença.
A partir desse contexto, meu amigo desenvolve uma política existencial da sustentabilidade. Política enquanto a arte de reger as relações no cotidiano, isto é, o seu modo de ser sempre acontece visando o equilíbrio sustentável. Não me refiro à sustentabilidade, restritamente, em sua relação com o “Ecos” natural. A sustentabilidade emocional é uma das grandes armas da alma de meu confrade.
Durante esses ricos anos em que nos aproximamos o escutei diversas vezes defendendo que não estava preparado para gostar de alguém. Em suas palavras: “tem que rolar a conexão... Sem a conexão natural e espontânea das energias é difícil gostar verdadeiramente de alguém”. Obviamente, essa conexão não pode ser colorida artificialmente, sob pena de a relação ser quebrada por qualquer brisa mais forte. “Zini” evitou maduramente projetar conexões. Além de ser maravilhoso subjetivamente, também é bonito, o que resultou em diversas possíveis ciladas que não entrou, porque sabia que não era amor, ou seja: a sua sensibilidade não havia se conectado com a das mulheres que atravessaram o seu caminho...
A tranquilidade de Zini garantiu que ele se fortalecesse sem bengalas existenciais. Desde que voltei à Poa ele é dos amigos que eu mais convivo. Tenho muita admiração pelas suas múltiplas inteligências e pelos maravilhosos momentos divididos. Ontem, tomávamos um café e conversávamos sobre todos esses argumentos, quando ele disparou a frase que me retirou do marasmo escritural e me estruturou previamente o sentido: “Puxa vida, Jayminho, fazia cinco anos que eu não gostava de alguém”. Isto é, ele se preparou cinco anos para poder gostar verdadeiramente de alguém. Quis o destino que eu estivesse próximo nesse seu encontro com a tal garota, uma querida amiga de outras vidas cuja amizade já está “encarnada”. Uma semana atrás, eu refletia com ela: “o Zini é muito massa, ele é maduro emocionalmente, tá prontinho para gostar verdadeiramente de alguém”. A essa altura ainda não sabia – que foram cinco anos para amar...
Jayme C.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

SENTIDOS

PEQUENOS MOMENTOS, GRANDES SENTIDOS


Eu estava no sempre auspicioso Bar 512 quando uma garota que eu não via há 10 anos veio falar comigo. Já havíamos nos cumprimentado na porta de entrada, e nesse momento percebi o carinho em sua reação ao nos revermos. Eu tinha uma lembrança do semblante dela, mas sem grandes intimidades, ademais, sequer lembrava/sabia o seu nome. 


Estávamos na área de fumantes, ou seja, na parte externa do bar. Surpreendentemente, ela iniciou sua narrativa: “Era muito significativo para mim, quando eu ia dar aquelas caminhadas na Redenção, te ver lá, feliz, tocando e transpirando alegria. Meu irmão estava morrendo de câncer, e aquelas caminhadas tinham como horizonte espairecer, reciclar um pouco aquele temor frente à finitude...”.

Bom, tentei não perder a leveza, mas foi inevitável alterar um pouco o tom debochado de quase sempre – sobretudo, na medida em que estávamos na noite, bebendo e eu não havia sentido intimidade antes dela começar a falar... Fiquei deveras tocado com o seu relato. Tentei conduzir o assunto para um Norte menos delicado, mas ela retomou o ponto, dizendo: “tu não fazes ideia o quanto eu amava mesmo te ver, mesmo que eu só te cumprimentasse, naquelas caminhadas...”. E com lágrimas caindo, concluiu: “eu te amo”! Nesse momento, trocamos um forte e fraternal abraço.

Dias depois era o seu aniversário. Suponho que a proximidade com essa data tenha colaborado com aquela sensível nostalgia de outrora. Na parte que me tocou, fiquei novamente impressionado como não temos um amplo saber sobre as consequências das nossas múltiplas vivências cotidianas. Os seus desdobramentos habitam sempre para além da nossa ilusão de controle sobre os nossos próprios sentidos. Além disso, pensei sobre como é bom estar em um lugar no qual a nossa história está enraizada, e assim ter a possibilidade de re-sginficar o passado permeado de amor. Feliz aniversário atrasado, Carol!
Jayme C.

suor no maranhom

SUOR NA SALA DE AULA NO MARANHÃO
No primeiro dia de aula, a minha primeira fala com os alunos sempre é o pacto do ar condicionado. Digo que, como sou um gordinho do Sul, suo muito e sinto saudade do frio. Logo, o ar condicionado deverá sempre estar em 17 graus. Alerto as meninas da turma, que sempre sentem mais frio, que é uma oportunidade climática de serem chiques de um modo diferente, usando mantas, echarpes, ou até aquele moletom trazido da Disney, estilo “Planet Hollywood”. O suor retira a minha concentração quando estou a dar aula. Aqui no Maranhão, praticamente, faz 30 graus o ano todo. Como disse no início, difícil para gordinhos sulistas…
Um aspecto me colocou a pensar esses tempos. O suar em público enquanto índice da preocupação com a própria imagem. Ou seja, a diferença que existe, ao menos para mim, entre estar suado, por exemplo, em uma festa ou estar suado quando estou dando aula. Odeio ficar excessivamente suado em uma festa. Já sou feio, se estiver muito maltrapilho ou muito suado alguns horizontes podem ser impossíveis... Quando estou dando aula, o deslocamento sempre provoca transpiração devido ao calor, e 80% das vezes começo a aula suado. O ar gelado vai me refrescando, na medida em que a Hermenêutica vai acontecendo. Aliás, há tanto amor profissional em jogo quando estou dando aula que não me importo com o cotidiano suor de começos de aulas...
Jayme C.

livros

Livros para o outro (ao vencedor as “melhores” batatas)
Ontem fiz uma coisa muito legal. Comprei 46 livros para premiar um vencedor. Comprei livros para alguém que ainda não existe, pois o concurso ainda não se realizou, isto é, o vencedor ainda é apenas uma ideia metafísica – muito embora já seja o horizonte de todos os concorrentes. Escolhi livros muito legais, tal como se estivesse comprando para mim. Poderia ter resolvido com comodidade e escolhido por uma lista da Internet, que nem sequer trazia o nome dos autores. Porém, fui até a livraria e escolhi como se estivesse a montar minha biblioteca. Foi lindo. Eu nunca na minha vida tinha comprado 46 livros de uma só vez. Todos novinhos. Com aquele cheiro maravilhoso de livro novo. Autores como Maquiável, Robert Alexy, Boaventura de Sousa Santos, Norberto Bobbio, para citar apenas quatro na imensidão dos 46. Aliás, um super agradecimento à gentil gerente da Livraria Leitura, não apenas pela atenção dirigida, mas também pelo excelente atendimento de sua equipe. Eu amo muito os livros... Devo boa parte da re-fundação existencial que outrora fiz em meu próprio ser, devido a sua existência em minha vida. Nesse contexto, foi uma tarde de amor aos livros mesmo não sendo o destinatário desses passaportes literários. Afinal, a leitura sempre nos desloca para outro lugar, na medida em que lendo o ainda não lido construímos novos sentidos. Acredito que existam dois modos fundamentais de conhecer culturas, a saber, lendo e viajando. Só posso ler o tempo todo...
Jayme C

atitude rock'n roll

Nietzsche e a atitude rock'n roll
Li uma crítica de um especialista em música que enxovalhou a “Banda do Mar”. A razão essencial, a falta de atitude na “pegada” da banda. Debochadamente, o autor chegou a chamá-la de “bunda do mar”, eu ainda não tinha escutado a banda. A partir do que li, escutei diversas músicas e achei bem razoável. Acho que têm bandas fazendo canções muito mais chatas e muito mais sem conteúdo, candidatas mais aptas à fúria debochada da intelligentsia musical.
O ponto, entretanto, é outro. O que de fato me incomoda é a tese que povoa o imaginário de uma galera por aí, a qual revela que apenas e exclusivamente os rockeiros têm uma postura crítica perante a vida. Essa ideia tanto se faz presente que temos a expressão cotidiana: “atitude rock ‘n’ roll”. Talvez no passado essa forma de linguagem representasse um mundo. Porém, o tempo sempre se encarrega de modificar as práticas e revelar algumas petrificações na linguagem. Ou seja, a atitude rock ‘n’ roll não está mais, necessariamente, nas bandas de rock e em seus seguidores. Ela também está no samba (música identificada com vários grupos de resistência étnico-antropológica), está no rap (tal como no samba), está na MPB, em seus acontecimentos repletos de conteúdo, tais como em Otto, Lenine, Baleiro, Criolo etc.
Perante a vida, a alternativa é a atitude nietzscheana. Ora, um dos alvos do filósofo alemão, considerado o psicólogo da cultura ocidental era a hipocrisia oriunda da moral cristã. Nietzsche tinha um colorido desprezo pela nossa condição de aceitação tácita dos valores postos. Em outras palavras, pela incapacidade do ser humano de questionar os valores (im)postos previamente aos fatos que atravessam a nossa existência. Desse modo, segundo ele, reproduzimos uma moral de escravos, no sentido de que estamos sempre esperando uma espécie de autorização senhoril (uma permissão que venha do céu, ou da nossa razão) para vivenciarmos as nossas próprias percepções da vida. Dada essa condição, interpretamos a nossa existência a partir de critérios exteriores a nós mesmos. Não nos entregamos às nossas próprias afecções; e, assim sendo, na hora do contato com o outro, somos hipócritas.
A tal “atitude rock ‘n’ roll” sempre me passou algo nietzscheano no horizonte da desconstrução da hipocrisia… Quiçá, daí derive a minha forma de referir na linguagem cotidiana a atitude como nietzscheana. Acho que é possível gostar mais do pandeiro do que da guitarra e ter uma postura crítica na vida. Já dizia Bezerra da Silva, um dos maiores “roqueiros” da música popular brasileira: “malandro é malandro, mané é mané, pode crer que é”.
Jayme C.

MAIORIDADE PENAL

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
A questão da redução da maioridade penal reascende à tensão na sociedade brasileira. Os grupos conservadores, ao sustentarem a redução, defendem basicamente uma melhoria no controle da violência. Em um contexto mais amplo, situam-se entre aqueles que defendem o porte de armas para civis, o endurecimento das penas, o encarceramento para usuários de drogas. Sua justificativa é sempre a mesma: a insegurança pública deve ser contida através da simples expansão do Estado-penitência. Segundo essa leitura, a violência deve ser combatida com mais violência.
Uma das primeiras lições que se aprende em Criminologia, revela que o crime possui origens “bio-psico-sociais”. Portanto, um fenômeno que tem uma realidade complexa, ou seja, não linear. Assim sendo, há uma inconsistência entre a proposta conservadora de uma resposta simples através do Direito Penal, para um problema complexo como o da violência urbana. A sociedade brasileira tem uma imensa gama de pessoas sem os direitos fundamentais sociais garantidos pelo Estado. Saúde, educação, alimentação, saneamento básico, enfim, o mínimo existencial para que um ser humano viva com dignidade.
Se um sujeito não possui a possibilidade de viver com dignidade, então podemos estar perdendo mais uma pessoa para a barbárie. Com muita sorte não perderemos a todos nessa condição. As biografias das pessoas e suas práticas, sabidamente, são um critério diferenciador. Porém, os que perdemos para a violência, perdemos por desnutri-los em seu “bios”, violentá-los em seu “psico” e abandoná-los no social. Façamos um exercício de ficção: imaginemos que a pessoa nessas condições tem 16 anos e que seu problema é simples de ser resolvido: cadeia. Devido ao caráter seletivo do Direito Penal, encarceramos sem nenhum pudor aos pobres, negros e desvalidos. É uma irresponsabilidade coletiva encarcerarmos os nossos jovens. Desse modo, estaremos reafirmando a nossa omissão com os jovens pobres, com os jovens negros, isto é, com os nossos jovens raquíticos em seus direitos básicos. A não redução da maioridade penal é a possibilidade de salvarmos o que resta da nossa dignidade enquanto sociedade civil.
Jayme C.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

medo, loucura & amô

MEDO DAS MULHERES QUE TÊM MEDO
Tem um tipo de mulher que eu prefiro não cruzar: as que têm medo e ato contínuo são loucas. Que têm medo de se entregar, de se jogar na felicidade porque vão perder um suposto controle. Aquelas que ganham amor e carinho e em troca te devolvem loucura. Não a loucura gostosa, meio Bossa Nova e Rock’n Roll e que não nos oferece riscos. Falo da insanidade de colocar o teórico na frente das práticas, as pré-visões antes da sensibilidade. Mulheres que fabricam problemas para terem uma desculpa para não investir no gostar. Escrevo desde um ponto de vista heterossexual, pois obviamente existem tantos homens quanto às mulheres nessa condição. Nesses casos, a relação vira um jogo jogado, perdido...
Uma das maiores merdas humanas é quando gostamos de alguém, mas não temos a maturidade de deixá-lo nos gostar. Há mais de 20 anos Herbert Viana já avisava – “saber amar é saber deixar alguém te amar”. E o ponto aqui não é dorzinha de cotovelo de quem foi rejeitado. Que, aliás, é super justo que aconteça, na medida em que inúmeras vezes os gostares não coincidem. Entretanto, quando dois sujeitos se gostam e não ficam juntos porque um dos dois enlouquece e não consegue se permitir a vivência afetiva, daí é foda! Acho que deveria existir algo como um “psicotécnico do amor”, prévio a qualquer sentimento nascente. Isto é, ao começar a gostar de alguém deveria ser feita uma avaliação para atestar a sanidade afetiva de cada um. Não dá para aguentar alguém que super entra na sua vida, passa a ter escova de dente em sua casa, te olha com paixão e devoção e, subitamente, um dia se acorda zangada por algo apenas imaginário.
Certa vez, uma garota veio me dizer que o fato de achá-la uma das mais interessantes que havia conhecido naqueles tempos, havia a desagradado. Algo como – “foi muita responsabilidade para mim”. Que esse era o motivo central dela ter pirado. Nesse ponto parece habitar uma característica constitutiva de quem se com-porta desse modo, a saber, a loucura imaginária/imaginada nunca é percebida pelo próprio louco, isto é, ele jura que as suas razões são reais. Aliás, o sentimento sempre implica em responsabilidade, ao passo que sabemos ser uma verdade da vida que a subjetividade implica e a objetividade explica. Portanto, se o Pequeno Príncipe tinha razão e de fato somos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos, fica a dica: cuide da sua loucura para não (inter)ferir (n)o seu amor.
Jayme C.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

amor & amizade

As lágrimas da amizade

No fim do ano de 2010, um episódio vivido com um amigo constituiu muito significado para nossa amizade. Ele chegou entristecido à minha antiga casa (Bombonera do jaymim), devido ao término de seu relacionamento. Naquele momento, ao me escolher para dividir as suas lágrimas e abrir o coração, percebi o quão importante eu era para ele. Nas amizades em geral, é um momento lindo quando sentimos a concretude do amor fraternal vindo do outro.

A sua tristeza era justa. Tratava-se de um sentimento que sempre repousa sobre os que gostam e se separam em algum momento. Naquela tarde/noite eu lhe disse que ele encontraria uma pessoa muito mais afinada com o mundo dele, e não deu outra. Sua atual namorada é uma mulher incrível e os dois formam um dos mais lindos e inteligentes casais que conheço. Entretanto, um chamamento à realidade foi feito, ao passo que após um momento de projeção/representação de amor, esse era o melhor horizonte para o meu querido amigo.

Minha principal preocupação com meu irmão era que ele desconstruísse a figura de sua ex. Que ele passasse a perceber as incompatibilidades entre eles, bem como as múltiplas possibilidades que estavam abrindo-se a partir daquele rompimento.  Com muita polidez, tentei demonstrar como existiam diferenças fundamentais no modo de levarem o cotidiano. Sem estabelecer juízos morais sobre ela, preocupei-me em destacar as múltiplas dificuldades que a diferença de maturidades gerava. Não que ele ou ela fossem muito mais maduros um que o outro. Porém, diversas vezes, acontece das pessoas terem maturidades distintas entre si. E caso não ocorra o encaixe complementar das maturidades, pode acarretar em incompatibilidades de mundos.

Anos depois, com nossa amizade já muito sólida, pelo grande acúmulo de maravilhosas experiências divididas (alegrias e dificuldades), mudamos os papéis e foi ele quem me amparou. Muito massa, que naqueles dias “cinzas”, ele ficou muito preocupado comigo, mesmo estando cheio de afazeres e responsabilidades. Senti o cutuco da vida, tal como elepois as projeções divididas eram muitas. Sua longa fala foi no mesmo horizonte da que eu tive com ele anos antes.  Com muita categoria me auxiliou na desconstrução que deveria ser feita. Deixando-me apenas com uma interrogação: por que é tão delicado lidarmos com as nossas próprias projeções de amor?

Jayme C.

sábado, 24 de janeiro de 2015

mulheres, machismos

A TEIMOSIA NAS MULHERES

Eu estava na praia da barra da lagoa com uma amiga colorida. Era uma tarde linda de sol e o mar catarinense nos recebia em um tom verde-transparente. Ela me pediu o fogo para acender um cigarro. Eu lhe alcancei o isqueiro. Depois de três tentativas sem sucesso, quase me ofereci para ajudá-la, ao passo que já havia fumado dois cigarros e assim tinha um handicap favorável. Quase... No exato momento em que ia dizer “eu acendo para você”, lembrei-me que ela, apesar da tenra idade, é uma mulher muito forte subjetivamente e deveras independente. Assim, minha fala foi: “eu ia me oferecer para acender, mas como você é mega independente...”. Ao que ela respondeu: “eu sou é teimosa!”.

As palavras dela mexeram com meu cérebro abalroado pela embriaguez, oriunda das múltiplas cervejinhas que tínhamos tomado, mas também enquanto embriaguez do sol e da beleza natural que circunscrevia aquela vivência. Minha fala subsequente foi no sentido que o reconhecimento da teimosia, era algo que eu já havia notado no jeito de outras pessoas. A partir desse ponto passamos a dialogar sobre as possíveis causas desse fenômeno. Ao que concluímos pela obviedade, ou seja, o machismo constitutivo das nossas práticas culturais acarreta que algumas mulheres acabem sendo teimosas em certas ocasiões. Isto é, devido às múltiplas situações de subjugo masculino em que são acometidas, algumas mulheres acabam desenvolvendo essa disposição. Ela não deixou de observar em nosso papo: “a teimosia acaba sendo um modo de reconhecimento, na medida em que a condição feminina é inúmeras vezes sufocada pelo machismo cotidiano”. Daí a nossa ideia que a teimosia está muitas vezes NAS mulheres, mas que não é DAS mulheres. E que os homens devem fazer uma meia culpa antes de dispararem que suas companheiras são teimosas. Questão a ser recolocada: até que ponto não são esses próprios homens que disparam essa condição?

Jayme C.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ciclos

MATAR O CHEFÃO E PASSAR DE FASE

Eu estava conversando com um grande amigo meu. Ele referia-se a como é difícil se relacionar com uma pessoa que não encerra as suas histórias passadas. Falávamos ao telefone, e quando ele fez essa menção, ascendeu uma lamparina em minha cabeça corroída pelo Jornal Nacional. De fato, é uma bronca grande estar com alguém que não sabe fechar os ciclos. E quantas vezes não somos nós próprios que estamos nessa condição? É sempre diligente olhar para o próprio umbigo...

Acho que essa dificuldade, quiçá, passe por não enxergarmos que já “matamos o chefão” e passamos de fase, como nos referíamos aos joguinhos de nossos video-games dos anos 90. Por falar em “jogos”, acaba sendo uma possibilidade constante para aquele que deixa as histórias em aberto. É terrível quando envolvemos o outro que não está a fim de jogar, em nossas emaranhadas “partidas” que já deveriam ter acabado.
Creio que outra consequência de deixar pequenas histórias sempre com reticências é que dificilmente conseguimos construir uma relação mais sólida e constante. Não que isso seja um problema, pois dá para ser muito feliz solteiro(a), sobretudo em uma terra pródiga como POA. Aliás, é possível utilizar a circunstância do amor aos desígnios da vida (Amor fati) para se representar essa dupla possibilidade de felicidade. É muito bom ser casado, mas também são significativos os prazeres de ser solteiro.

Voltando ao não encerramento dos ciclos já vivenciados, penso que podem revelar problemas na ligação com a própria história daquele que se mantém nessa condição. Não tenho plena certeza, mas desconfio que haja algum vínculo entre o modo com que atribuímos alguns significados a partir da nossa historicidade e o grau de maturidade que temos dos aprendizados históricos registrados. Explico: se o crescimento deriva da capacidade de superar as pequenas e grandes mortes cotidianas que atravessamos, dos prazos de validade que as coisas têm, então não saber pontuar alguns finais podem nos deixar sem o desenvolvimento destas maturidades. Deixar em aberto é não preencher conosco alguns buracos da nossa história. Talvez, não (re)conhecer o tempo lógico das coisas.

Com relação aos ciclos, a relevância das histórias nas uniões afetivas parece ser o tema de uma canção de Jorge Drexler. “Todo se transforma”, ilustra que ao nos relacionarmos, projetamos aquilo que recebemos, ou seja: o que já trazemos como nossa bagagem; pois já sempre estamos em algum ponto de nossa própria história. Nesse sentido, quando nos encontramos com o outro, “cada uno lo da, lo que recibe, y luego recibe lo que da, nada es más simples, no hay otra norma: nada se pierde, todo se transforma.”. Projetamos a nossa história e ao mesmo tempo somos projetados historicamente pelo outro. Tudo se transforma em história quando estamos afetivamente juntos. E desse modo, tudo se transforma em nossa história. Daí, o quão fundamental parece ser a maturidade com que manejamos a nossa vida histórica. E que encerrar as histórias passadas pode ser um importante aprendizado.
Jayme C

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

relações e desejos

A (anti)ética do desejo

Um critério possível para um casal estabelecer em uma relação a dois é o da ética do desejo. Ou seja, que as pessoas sempre façam aquilo que estão querendo quando distantes e não precisem compor os desejos. Evita que o outro seja visto como uma castração, na medida em que sempre apóia que banquemos o que queremos fazer.

Não ser sentido pelo parceiro como um obstáculo para a execução do seu querer é uma importante conquista de algumas relações. Não que seja fácil conseguir esse horizonte. Muita afinidade, diálogo e lealdade são elementos decisivos nessa constituição. Além de muito amor, é claro, pois a entrega de ambos à relação deve ser sentida com reciprocidade. A existência ou não de similitude na dedicação de cada um serve como termômetro da relação.

Entretanto, a ética do desejo pode ter os seus revezes. Nos momentos de instabilidade na relação, pode ser um fator de insegurança para o parceiro. Quando os casais atravessam turbulências, por vezes os sujeitos se abrem para vivências às quais estavam fechados nos tempos de felicidade... Nesses contextos pode-se ter dificuldade ao optar pela ética do desejo. Em outros termos, talvez se devesse perguntar como agir quando o nosso desejo se torna colidente com o desejo do outro. O que fazer entre bancar o que queremos e a necessária consideração com o parceiro em nossas opções? Nesses momentos, a ética do desejo pode implodir de vez com uma relação que está cambaleando.

Um olhar antropológico, sobre essas questões, pode apontar a primazia do individualismo como base da ética do prazer, pois uma relação com esse grau de liberdade só se realiza com duas pessoas com concretude, que se satisfazem consigo mesmas, que sejam plenamente independentes. A essa concepção pós-moderna se contrapõe outra que não é capaz de conceber amor sem a união dos corpos, dos desejos e dos projetos de vida. Tradicionalmente, o amor não é viável sem que as pessoas sejam capazes de se entregar ao outro.         

É difícil construir critérios quando estamos nos relacionando afetivamente com alguém. Cada sujeito é um mundo com as suas particularidades históricas. E, desse modo, cada um dos amantes chega à relação com um modo de ser único em suas práticas. Talvez, o desejo do outro seja um excelente critério quando conhecemos bem o nosso parceiro. Talvez, funcione quando haja sintonia nas maturidades de ambos. Ou não, talvez a ética do desejo se revele frágil nos momentos de crise ou de falta de reciprocidade na transparência. São os paradoxos de um mundo no qual os valores estão constantemente em franca transformação. Como diria Caetano, em seu terno dom de iludir: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Jayme C.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

paradigma da dor

Chão de barro

Quando minha avó morreu abriu-se o chão e eu cai num abismo. Isso porque, mantive uma complexa relação de amor com ela. O que me atrapalhou na demonstração de afeto a outras pessoas enquanto ela foi viva. Em verdade, o afeto partiu dela.

Meu avô, com quem ela casou com 18 anos, sofreu um acidente e morreu repentinamente quando ambos tinham 46 anos. Ficaram apenas as três mulheres – minha avó, minha mãe e minha tia. O meu avô se chamava Jayme de Azevedo Camargo. Eu nasci quatro anos após a sua morte, e minha mãe lhe rendeu a homenagem projetada no nome que me deu. Resultado de tudo, é que fui dois “Jaymes” no imaginário delas.

O sofrimento pela perda de vovó foi até seu último batimento cardíaco. Deu-se ao vivo. Era uma tarde abafada de setembro. Minha avó estava tomada pelo câncer e sabia-se que eram os seus últimos dias. Estava em um quarto do hospital e não na UTI, pois não havia mais volta. Saí da Puc às 11 e 30 e fui direto para lá, onde encontrei minha mãe. Pouco depois, fomos para casa almoçar. Imediatamente, após comer disse para mamãe que ia voltar para o hospital. Discutimos, pois ela queria que eu fizesse outra coisa antes de voltar para junto de minha avó.

Saí porta afora e voltei para o hospital. Estava no quarto, eu, uma sobrinha de minha avó e mais uma pessoa que não me lembro. Eu estava sentado em um banco bem junto ao leito, abraçado nela. Meio que cochilei e me acordei com a fala da sobrinha: “o coração da tia está parando de bater”. Comecei a chorar e abraçado em sua barriga fui sentindo o coração de “vovolinha” lentamente parar. Como disse no começo, fiquei sem chão.

Anos depois, em uma das muitas sessões de terapia com o meu querido ex-psicólogo Dr. Fausto Lemos, eu me percebi relatando que não apenas tinha caído em um abismo, mas que no fim da queda eu me esborrachei em um chão de barro, aquele barro bem vermelho. Senti a condição de nenhum outro horizonte que não apenas o chão duro de barro vermelho. Dá para se imaginar o que significou esse sofrimento na minha pele... Foram meses de muita dor. De lágrimas incontidas em dias de torpor existencial. O maior sofrimento da vida.

Esse momento vivido há 14 anos tornou-se o meu paradigma para o que é sofrer e sentir dor. Em palavras terapêuticas, o meu mito de (re)fundação existencial. Acho que talvez por isso o meu imaginário referiu-se ao chão de barro, metáfora perfeita para a possibilidade de re-modelagem. A mistura da dor com a sensação de estar perdido é algo deveras difícil no horizonte do sentido. Enfim, ao se tornar o meu referencial de sofrimento, a perda da minha avó só vem à tona nos momentos mais difíceis. E sempre reverbera um ensinamento em meu coração: só a morte encerra, em definitivo, as nossas possibilidades. No mais, como diria um amigo poeta, vida é fortuna, fado e circunstância.         

Jayme C.